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Quando os robôs assumem o turno



A automação deixou de ser uma abstração, mas ainda é preciso separar realidade de ficção. Na fábrica da BMW em Spartanburg, nos Estados Unidos, a empresa afirma que robôs humanoides da Figure AI já apoiaram a produção de mais de 30 mil veículos BMW X3 em 2025. A Mercedes-Benz, por sua vez, testa o robô Apollo, da Apptronik, em tarefas de intralogística, como levar kits de peças à linha de montagem e inspecionar componentes. Na Alemanha, a Schaeffler anunciou um acordo para receber até 2 mil humanoides nos próximos anos. No Japão, o governo aposta em robótica para enfrentar o envelhecimento populacional e a escassez de mão de obra em áreas como cuidado, alimentos e manufatura. 

Ainda não estamos diante de uma substituição generalizada de trabalhadores por humanoides. O que já existe, e é mais importante, é a substituição gradual de tarefas humanas específicas: repetitivas, pesadas, arriscadas ou ergonomicamente ruins, ou seja, tarefas antes exclusivamente humanas começam, gradualmente, a ser executadas por máquinas com mobilidade, capacidade de adaptação e autonomia crescentes.

O futuro, portanto, não chegou de forma espetacular ou com fogos de artifício. Ele vem silenciosamente, tarefa por tarefa, turno por turno.

E talvez a pergunta mais importante não seja se os robôs substituirão pessoas. Essa discussão é antiga e clássica e nos acompanha desde sempre, basta haver inovação tecnológica como houve ainda na Revolução Industrial.

A questão que realmente merece nossa atenção é outra: o que acontece quando a tecnologia deixa de ampliar a capacidade humana e passa a compartilhar o próprio trabalho? A inteligência artificial assume tarefas intelectuais. A robótica assume tarefas físicas. Pela primeira vez, corpo e mente passam a ser parcialmente automatizados ao mesmo tempo.

A primeira pergunta é inevitável: afinal, essa transformação compensa? A inteligência artificial e a robótica estão, de fato, tornando as organizações mais produtivas? As evidências ainda são contraditórias. Há empresas que relatam ganhos importantes, enquanto outras acumulam dificuldades de integração, retrabalho e retorno abaixo do esperado. Mas talvez estejamos olhando para o lugar errado. O impacto mais profundo dessa revolução não está apenas nos indicadores de produtividade, e sim na forma como ela começa a redefinir o próprio trabalho.

Pela primeira vez desde a mecanização industrial, máquinas deixam de executar apenas força física ou movimentos repetitivos e passam a assumir também tarefas cognitivas, decisões operacionais e, no caso dos robôs humanoides, atividades que antes exigiam presença física humana.

Agora cabe nos questionarmos sobre as mudanças na relação capital, trabalho e poder quando parte da força laboral não é mais humana. Porque se perguntarmos se a tecnologia funciona, já temos a resposta.

Essa talvez seja a discussão mais importante da próxima década. Não porque o trabalho humano desaparecerá, mas porque sua natureza será redefinida. Ao longo da história, toda grande transformação tecnológica reorganizou não só a economia, mas também as relações sociais. Foi assim com a máquina a vapor, com a eletrificação do cotidiano, com a informática e com a internet. Agora, entramos em uma fase em que a tecnologia não apenas amplia a capacidade do trabalhador: ela passa a compartilhar tarefas, responsabilidades e decisões.

A transformação também ultrapassa os limites da produção e entra na esfera do contato humano e do cuidado. Robôs sociais e sistemas de inteligência artificial já são utilizados para acompanhar idosos, auxiliar crianças, oferecer suporte emocional e reduzir a solidão. Em alguns casos, pessoas desenvolvem vínculos afetivos genuínos com essas tecnologias o que pode ser bem arriscado, pois estamos terceirizando partes da própria experiência humana, como cuidado, companhia e atenção e, com isso, vamos transferindo afetos e colocando e apostando nossas emoções em experiências não humanas.

É justamente nesse ponto que a discussão deixa de ser tecnológica para tornar-se política e social. Jean-Jacques Rousseau definia o contrato social como o pacto que torna possível a vida em sociedade, estabelecendo direitos, deveres e a legitimidade das instituições. Em diferentes momentos históricos, profundas transformações econômicas exigiram que esse pacto fosse reinterpretado. A Revolução Industrial redefiniu as relações entre capital e trabalho. A economia digital transformou mercados, profissões e formas de organização social. Agora, a inteligência artificial e a robótica nos colocam diante de uma nova renegociação desse contrato.

Nesse novo contrato, o primeiro desafio recai sobre as empresas e seu capital humano. Durante décadas, o valor do trabalhador esteve associado principalmente ao domínio de conhecimentos técnicos e à capacidade de executar tarefas específicas. Quando essas tarefas passam, gradualmente, a ser compartilhadas com sistemas inteligentes, muda também o papel das organizações. Sua responsabilidade deixa de ser apenas contratar talentos e passa a incluir a formação contínua desses profissionais. Isso significa investir menos na simples adaptação às ferramentas e mais no desenvolvimento das capacidades que permanecem distintivamente humanas: pensamento crítico, criatividade, inteligência emocional, julgamento ético, liderança, colaboração, governança e accountability.

Em outras palavras, a vantagem competitiva deixa de estar apenas na tecnologia adotada ou na qualificação técnica das equipes. Ela passa a depender, cada vez mais, da capacidade de formar profissionais que desenvolvam competências distintivamente humanas como pensamento crítico, comunicação, inteligência emocional, criatividade, colaboração e julgamento ético, e que sejam capazes de trabalhar, supervisionar, questionar e tomar decisões em parceria com sistemas inteligentes. Mais do que dominar ferramentas, será necessário desenvolver uma governança de alto nível, capaz de definir responsabilidades, assegurar transparência, estabelecer mecanismos de accountability e garantir que a inteligência artificial amplie as capacidades humanas, em vez de simplesmente substituí-las.

O segundo desafio é a governança. Nenhuma revolução tecnológica aconteceu sem que a sociedade precisasse criar novas regras, fortalecer instituições e redefinir mecanismos de proteção social. Com a inteligência artificial e a robótica não será diferente. O debate não pode se limitar à inovação, à eficiência ou à competitividade. Ele envolve educação, proteção de dados, transparência, política industrial, inclusão digital, sustentabilidade e mecanismos capazes de distribuir de forma mais equilibrada os ganhos gerados pela tecnologia. Governança, nesse contexto, significa criar princípios, estruturas e processos que permitam à inovação prosperar sem comprometer direitos, aprofundar desigualdades ou fragilizar a confiança da sociedade.

O terceiro desafio é a accountability. À medida que sistemas inteligentes passam a recomendar diagnósticos médicos, selecionar candidatos em processos de contratação, dirigir veículos, negociar ativos financeiros e até interagir emocionalmente com pessoas, a pergunta deixa de ser apenas o que essas tecnologias são capazes de fazer. Passa a ser quem responde por suas decisões e consequências. Quem supervisiona os sistemas? Quem define seus limites? Quem responde por um erro, por um viés discriminatório ou por um dano causado por uma decisão automatizada? E quem se beneficia economicamente quando parte do trabalho passa a ser realizada por máquinas? A inteligência artificial pode executar tarefas com crescente autonomia, mas a responsabilidade ética, jurídica e social por seus impactos deve continuar sendo humana. É justamente essa accountability que impedirá que a autonomia das máquinas se transforme em ausência de responsabilidade das pessoas.

Há ainda uma consequência menos debatida, mas talvez mais profunda: a da formação acadêmica e profissional. Se a inteligência artificial assume justamente as tarefas de entrada das profissões, como formaremos os profissionais do futuro? Médicos, advogados, engenheiros, pesquisadores e gestores não nascem especialistas. Eles constroem experiência realizando atividades inicialmente simples, repetitivas e supervisionadas. Se esses primeiros degraus desaparecerem, talvez o maior risco não seja perder empregos, mas perder os caminhos pelos quais aprendíamos a trabalhar.

Essa preocupação vai além da economia. A Constituição Federal brasileira estabelece, em seu art. 205, que a educação tem como finalidade a qualificação para o trabalho. Quando o próprio trabalho se transforma, transforma-se também a responsabilidade coletiva de preparar pessoas para exercê-lo. Não basta ensinar futuros profissionais a utilizar ferramentas de inteligência artificial com senso crítico, responsabilidade e discernimento. Será necessário capacitá-los a utilizá-las para expandir suas próprias capacidades intelectuais, criativas e analíticas, produzindo resultados que nem o ser humano isoladamente nem a máquina sozinha seriam capazes de alcançar. O verdadeiro diferencial competitivo deixará de ser apenas saber usar a IA, mas saber potencializar a inteligência humana por meio dela.

O Fundo Monetário Internacional tem alertado que, em regiões com maior demanda por competências relacionadas à IA, o emprego em ocupações mais vulneráveis à automação ficou 3,6% menor após cinco anos do que em regiões com menor demanda por essas competências. O próprio FMI aponta aponta que esse fenômeno representa um desafio especial para jovens em início de carreira, já que muitas funções de entrada estão entre as mais expostas à IA. A questão, portanto, não é apenas quantos empregos desaparecerão, mas como construiremos a próxima geração de especialistas quando os primeiros degraus da aprendizagem profissional começarem a ser ocupados por máquinas.

Quando os robôs assumem o turno, a pergunta decisiva não é se ainda haverá trabalho humano.

Haverá.

A verdadeira questão é outra: esse trabalho será mais digno, mais criativo e melhor remunerado ou será apenas mais fragmentado, mais vigiado e mais precário? A resposta não será dada pelas máquinas. Será construída pelas escolhas políticas, econômicas e sociais que fizermos enquanto elas aprendem a trabalhar ao nosso lado.

Porque toda revolução tecnológica redefine o que as máquinas são capazes de fazer. Mas toda grande civilização é lembrada, sobretudo, pelas escolhas que fez sobre o que deveria continuar sendo exclusivamente humano.


 Autor Bia Willcox

Bia Willcox é advogada, jornalista e pesquisadora nas áreas de Empreendedorismo, Inovação e Marketing. Atua como mentora de negócios e escreve sobre os impactos da hiperconectividade, da inteligência artificial e das tecnologias emergentes nas relações humanas e no futuro da sociedade. 81 artigos publicados.

Postado em Brasil 247








Nota

Accountability é um termo em inglês que não possui uma tradução única e exata para o português. Dependendo do contexto, pode significar:

Prestação de contas (o sentido mais comum em administração e gestão).

Responsabilização.

Responsabilidade com obrigação de responder pelos resultados.

A ideia central de accountability vai além de apenas ser responsável por uma tarefa. Ela envolve:

assumir a responsabilidade pelas próprias ações e decisões;

prestar contas sobre o que foi feito;

ser transparente em relação aos resultados;

aceitar as consequências dos acertos e dos erros;

agir para corrigir problemas e melhorar quando necessário.

Exemplo no ambiente de trabalho:

Um gerente que assume a responsabilidade pelo desempenho da equipe, explica os resultados à diretoria e implementa melhorias quando as metas não são atingidas está demonstrando accountability.

Exemplo no setor público:

Um órgão público que divulga como utilizou os recursos, justifica suas decisões e pode ser cobrado pela sociedade pratica accountability.

Em resumo, uma boa definição seria:

Accountability é a capacidade e o compromisso de assumir responsabilidades, prestar contas de forma transparente e responder pelas consequências das próprias ações e decisões.