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Os 250 anos de Jane Austen : por que a autora de “Orgulho e Preconceito” está mais viva do que nunca?



Um retrato de Jane Austen baseado em um desenho feito por sua irmã Cassandra.

Especialista espanhola explica como Austen criou um “manual de inteligência emocional” que dura séculos através das personagens de seus livros e capturou o que ninguém via: a vida cotidiana como uma grande aventura.


Publicado 15 de dez. de 2025, 16:49 BRT, Atualizado 17 de dez. de 2025

O que faz um clássico se tornar um clássico? Essa alquimia de relevância artística e atemporalidade segue um mistério, mas não no caso da escritora inglesa Jane Austen. A importância da autora de “Orgulho e Preconceito” e “Razão e Sensibilidade" parece só aumentar – e a cada 16 de dezembro, data de seu aniversário, é celebrado o “Jane Austen's Day” com mais fãs se somando a uma legião de admiradores.

Em 2025 se comemora os 250 anos do nascimento de Jane Austen. Considerada a criadora dos alicerces das histórias românticas tal como as conhecemos, ela também moldou a narrativa literária inglesa graças a seu texto fluído, preciso e de fácil compreensão. As histórias protagonizadas por suas heroínas (como a espirituosa Elizabeth Bennet, de “Orgulho e Preconceito”) mostram o olhar afiado de Austen, bem como seu senso de humor refinado e sarcástico, e seguem ganhando adaptações para o cinema, o teatro e o streaming.

Jane também é referência para os autores modernos. Entre eles está a escritora espanhola Espido Freire, de 51 anos, nascida na cidade de Bilbao e uma especialista em Jane Austen, a quem revisita vez ou outra em seus livros. É o caso de sua mais recente obra – “Mi tía Jane” (“Minha tia Jane”), uma biografia da autora britânica baseada em fatos e documentos históricos e contada pelo olhar do sobrinho de Jane – James Edward Austen.

National Geographic entrevistou a escritora com exclusividade e por ocasião dos 250 anos de Jane Austen, para entender um pouco sobre o seu legado e a relevância da inglesa. “Jane Austen não é uma autora complexa, nem barroca: ela vai direto ao osso. E em um momento em que a atenção de quem lê dura apenas uns segundos, Jane é perfeita tanto com suas frases como com as cenas que inspira”, garante Freire. A seguir, confira a conversa completa.


“Razão e Sensibilidade”, “Orgulho e Preconceito”, “Mansfield Park” e “Emma” foram os quatro livros lançados em vida por Jane Austen. Sua família ainda publicou duas outras obras no mesmo ano em que a escritora morreu, já após ela ter falecido. Foto de Charlotta Wasteson/Creative Commons (CC BY 2.0)

Por que Jane Austen ainda é relevante no século 21?

NatGeo – Mesmo mais de 200 anos depois, parece que Jane Austen vem se tornando mais e mais popular. Na sua opinião, o que explica o fato de ela seguir ganhando fãs e leitores jovens, e concorrendo com o ambiente digital?

Espido Freire – Os jovens sempre foram jovens e, muitas vezes, a gente se esquece que, tanto eles como as crianças, têm muito mais em comum entre si do que nós, os adultos. E sobretudo na época da adolescência ou da pós-adolescência onde a rebeldia, a necessidade de buscar um ideal, o enamoramento mais forte, a capacidade de fazer sacrifícios e também uma maior sensibilidade são comuns a praticamente toda a juventude de todas as épocas do mundo.

Mas com a obra de Jane o que ocorre é que, nos finais do século 18, princípios do 19, com o romantismo muito perto – ainda que Jane Austen fosse neoclássica – ele começa a se manifestar de uma forma que é a mesma que a nossa hoje. Isto é, se começa a falar de liberdade, da importância da identidade pessoal, da desobediência aos mais velhos e da necessidade de buscar o próprio caminho.

Ainda que os jovens no passado sentissem parecido, aquilo que era pedido a eles era obediência e sacrifício de si mesmos – ou do contrário eles receberiam terríveis castigos. Pense no que aconteceu com Romeu e Julieta, por exemplo. As histórias de Jane Austen, por sua vez, falam de jovens que têm que enfrentar determinadas dificuldades – que não são uma guerra ou ser abandonado em um bosque; não são as horríveis questões épicas, senão aquilo que todos nós encontramos no nosso dia a dia, na nossa casa ou na nossa cidade.

Então, mesmo sem recorrer a grandes aventuras, Jane nos mostra que aquilo que acontecia com a protagonista – e suas irmãs, primas, sobrinhas – não envelheceu porque sempre há uma conexão humana entre uma geração e outra. As mães atrapalhadas, os pais distantes, a sensação de que você é a única que mantém um pouco o juízo na casa – ou o sentimento de amar alguém e ao mesmo tempo em que você se irrita com essa pessoa constantemente.


À esquerda: Capa do livro "Mío Tía Jane", de Espido Freire.

À direita:O livro "Orgulho e Preconceito" é considerado pela escritora Espido Freire como a obra mais perfeita da lista de livros publicados por Jane Austen. fotos de Divulgação

Afinal, quem era Jane Austen?

NatGeo – Austen sempre foi muito mordaz em suas observações, mas já teve que a descreveu como uma solteirona amargurada. Você acha que seu trabalho também ajuda a revelar quem era, na verdade, Jane Austen?

Espido Freire – Bom, os leitores me dizem que sim, principalmente as mulheres. Elas contam que tinham outra ideia sobre quem era a Jane e que depois de lerem seus livros isso mudou. Quer dizer, ela tem frases tão irônicas, tão divertidas; não é uma “senhora” ranzinza que estava em casa escrevendo sozinha. Era alguém que estava aberta ao mundo e tinha uma capacidade incrível para traçar o caráter humano.

Também é preciso levar em conta que, nos últimos tempos, temos começado a ler de uma forma muito mais intensiva as autoras femininas, porque se publicam mais seus livros, se estuda mais sobre elas. E o mundo de Jane Austen é bastante atrativo: é um mundo do equilíbrio, do conhecer-se a si mesma; um mundo em que o amor não é uma tormenta que te arrasa, senão uma brisa que te acompanha. É algo que te faz melhor e melhor pessoa.

Acredito que as novas gerações, inclusive os millennials, que têm uma enorme preocupação por afastar-se de questões tóxicas, encabeçam, muitas vezes, rejeições evidentes ao amor romântico (ainda que sigam lendo e consumindo muito amor romântico), ler Jane Austen pode ser muito refrescante. É a sensação de que não há por que estar constantemente ao limite.


A casa de Jane Austen que hoje é um museu fica em Chawton, nos arredores de Alton, Hampshire, Inglaterra.Foto de Creative Commons (CC BY-SA 4.0)

Como autores e leitores se conectam com a autora de “Orgulho e Preconceito”

NatGeo – Qual é a sua relação pessoal com Jane Austen?

Espido Freire – Meu estudo e proximidade com Jane Austen começaram quando eu estava na faculdade de filologia inglesa e já tinha lido alguns de seus romances. Anos mais tarde, depois de já ter publicado alguns livros, surgiu um desejo de escrever sobre escritoras. Eu queria “devolver” parte do que elas me tinham dado e pertencer também a uma linhagem de mulheres que escrevem.

Assim surgiu a ideia de viajar para os lugares os quais Jane Austen e também as irmãs Brontë viveram. Meu primeiro livro sobre Austen também incluía as duas e esses destinos. A partir de então, a demanda por parte dos leitores por saber mais sobre Jane nunca cessou. E, nos últimos cinco anos, aumentou de uma maneira muito evidente.

Então, uma vez que você encontra uma temática que interessa aos leitores, é um tesouro, certo? Meu último livro, "Minha tia Jane”, também é o primeiro romance que escrevo realmente sobre Jane Austen (o livro anterior era um ensaio). Aqui, a maneira com que o narrador – neste caso James Edward, que é um rapaz de 19 anos sobrinho de Jane – vai se aproximando da história me faz ocultar coisas que eu sei sobre a escritora, porque James não pode já saber de tudo num primeiro momento.

Isso é muito interessante porque obriga a mim e aos leitores a voltar à tia Jane, à Jane solteira, à Jane que era o membro menos importante de sua família. E, ao mesmo tempo, sentir a surpresa que Edward deve ter sentido quando ele e todos começaram a se dar conta de que a “tia Jane” era muito mais do que eles imaginavam. No final, o livro fala de um tema muito delicado, que é o de não conhecermos as pessoas por quem temos afeto, de não conhecermos as pessoas da nossa própria família.

Já meu romance favorito de Jane sempre varia; mas agora eu diria que é “Persuasão”. Trata-se de uma história sobre segundas oportunidades; é o romance do arrependimento, das pessoas que não dizem ‘se voltasse a nascer faria tudo igual’. Ao contrário. Nesse livro ela diz que, se há uma segunda oportunidade, as coisas podem ser feitas melhor e para mim isso é encantador.

No entanto, acho que o livro mais perfeito de Jane, o melhor armado, talvez seja “Orgulho e Preconceito”, sua obra mais popular. É muito bem escrita, divertida, brilhante, luminosa… Desde os diálogos ao arranque da história; da psicologia da personagem às cenas, trata-se de uma grande obra clássica.
“Ler Jane Austen pode ser muito refrescante. É a sensação de que não há por que estar constantemente ao limite.”  Espido Freire - Escritora espanhola
Quem foi Jane Austen e por que ela é importante

Nascida em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, no interior da Inglaterra, Jane Austen é considerada o nome literário que “deu ao romance seu caráter distintamente moderno ao retratar pessoas comuns em sua vida cotidiana”, como detalha Enciclopaedia Britannica (plataforma de conhecimentos gerais do Reino Unido).

Apesar do sucesso que ronda seu nome e seu legado, Austen só publicou quatro livros na carreira. São eles “Razão e Sensibilidade” (1811), “Orgulho e Preconceito” (1813), “Mansfield Park” (1814) e “Emma” (1815). Já “Persuasão” e “A Abadia de Northanger” foram originalmente publicados juntos, de maneira póstuma por sua família, em 1817.

Apesar de ser conhecida por suas novelas românticas, Jane Austen nunca se casou oficialmente, focando seu tempo e talento na escrita e na análise do cotidiano. Seu olhar apurado para captar as sutilezas dos relacionamentos amorosos e demonstrar como os matrimônios eram verdadeiros negócios jamais envelheceu.

Jane morreu em 18 de julho de 1817, em Winchester, Hampshire, também na Inglaterra, mas a cada ano milhares de mulheres se reúnem para comemorar sua vida e obra na celebração que ficou conhecida como “Jane Austen Day". Ocorrida anualmente em 16 de dezembro, a efeméride contempla encontros literários além de bailes de época e festivais.


*A entrevista foi feita por Luciana Borges, Editora Sênior de National Geographic Brasil e LATAM.




👆Orgulho e Preonceito - Série de 1995 - Está no YouTube

👆Orgulho e Preconceito - 2005 - Saiu da Netflix, mas está no 
Telecine e YouTube

👆Orgulho e Preconceito - 2026 - Estreia na Netflix

👆Razão e Sensibilidade - 1995 - Está na Netflix

👆Emma - 1996

👆Persuasão - 2007


Frases e pensamentos de Patricia Tavares

 


"Sou Psicóloga e Reikiana Nível 3, trabalho há 21 anos em consultório com psicoterapia, hipnose clínica. Já trabalhei em hospital, núcleo de violência da mulher. Acredito na vida, no amor, nos bons sentimentos, no perdão, na beleza da alma, na superação, no ressignificar, na humanidade. Adoro escrever e falar sobre sentimentos, superações, motivar pessoas, conseguir promover o melhor, despertar o que possa ser maravilhoso em cada um de nós e libertar pessoas de suas prisões emocionais, com uma nova e especial forma de viver, independente dos acontecimentos da vida."





O problema não é Bolsonaro, é esse Brasil por trás dele que não sabia existir, diz Mia Couto


Por Adriana Brandão

O “Mapeador de Ausências”, último romance do moçambicano Mia Couto, acaba de ser traduzido para o francês. O livro, que chegou às livrarias da França no início de setembro, foi selecionado para o importante prêmio literário Femina. O escritor veio a Paris participar da promoção do romance, publicado na França pela editora Métailié e traduzido por Elisabeth Monteiro Rodrigues.

Mia Couto, que se define como um “poeta que tem a ousadia de entrar no universo da ficção”, é um dos maiores escritores contemporâneos em língua portuguesa. Ele é autor de mais de 30 livros, traduzidos em mais de 30 países, e muitas vezes pressentido para o Nobel de Literatura.

“O Mapeador de Ausências”, em francês “Le cartografe des absences”, foi publicado em português em 2020. O romance conta a história de um intelectual e poeta moçambicano branco que volta à sua cidade natal, Beira, em busca de seu passado. A viagem acontece sob a ameaça iminente do ciclone Idai, que destruiu a região em março de 2019.

A história, narrada no estilo poético e polifônico que caracteriza a obra de Mia Couto, navega entre duas linhas temporais, o presente às vésperas do ciclone e o começo dos anos 1970, época da guerra pela independência de Moçambique, ainda colônia portuguesa. No centro do livro está um massacre, o massacre de Inhaminga.

Nesta entrevista à RFI, Mia Couto confirma que este é o seu livro mais autobiográfico, mas que usa a própria história para contar como era esse tempo que os moçambicanos chamavam de “Guerra de Libertação Nacional” e os portugueses de “Guerra Colonial”.

Falsas ausências

As ausências de que fala o título, “são falsas ausências”. São as ausências do pai, jornalista e poeta, engajado na luta contra a colonização e perseguido pela polícia política, e de pessoas que foram invisibilizadas no passado, como a população negra, mulheres e homossexuais. O escritor resgata a história de seu país, mas não “como uma missão”. Mia Couto diz que essa história oficial “tem um exercício de esquecimento” fascinante e que escreve para “construir uma outra versão”.

Nessa e em outras de suas obras, ele aborda os paradoxos do colonialismo e nessa entrevista faz um paralelo com o Brasil, que ele considera como uma segunda pátria: “Em Moçambique, e mesmo no Brasil, a herança colonial persiste”. O escritor moçambicano tem uma relação estreita com a cultura brasileira e comenta com frequência a atual situação política no país. Ele avalia que o Brasil está diante de uma “escolha quase de civilização. O problema não é só o Bolsonaro, o problema é tudo que está por trás do Bolsonaro, esse Brasil que eu não sabia que existia e que existia com tanta dimensão”.

RFI: Mia Couto “O Mapeador de Ausências” é o seu livro mais autobiográfico?

Mia Couto: Sim. Eu não sabia, quando comecei o livro, o que ele iria ser, mas sabia que eu ia percorrer esse meu passado sempre com a intenção de que, ao trazer esse passado, eu não estaria contando a minha própria história; eu estaria usando a minha história do que foi esse tempo, que foi na minha cidade um tempo muito rico porque a ‘Guerra Colonial’, como os portugueses chamavam e nós chamávamos de ‘Guerra de Libertação Nacional’, dividia a população em dois mundos. Mas os dois mundos enlouqueceram porque para uns era o anúncio de um certo futuro, um futuro luminoso, e para outros o anúncio do fim do mundo.

Que ausências são essas que o personagem mapeia?

MC: São falsas ausências. (O livro) começou pela ideia que havia que meu pai tinha sido um pai ausente, que não deixou marca. Na verdade, essa minha visita que eu faço agora à cidade para fazer esse livro ela ressuscita a presença do meu pai, fundamental. Da mesma maneira, alguma coisa no meu passado me foi entregue como sendo invisível, como sendo não existente. Portanto, quando eu conto a história desse lado ausente do meu pai, eu conto também a história daqueles que foram tornados ausentes, no sentido de tornados invisíveis no passado.

No centro deste livro está um massacre, o massacre de Inhaminga. A história de Moçambique, este país que como você escreve em “O Mapeador de Ausências” tem memória curta, lhe inspira e está presente em praticamente todos os seus livros. Resgatar essa história é seu objetivo?

MC: Sim, mas não como um sentido de missão. Eu não me apresento com essa intenção. Essa história tem um exercício de esquecimento que me entusiasma. Me fascina como o esquecimento é uma construção ficcional, no fundo. Não é um lapso, não é uma ausência. Eu dialogo com esse aparente vazio que se criou sobre a escravatura, sobre a colonização, sobre a guerra civil depois da independência, para construir uma outra versão da história.

Você começou a escrever o romance desse regresso ao passado, à infância, antes do ciclone. Por que decidiu incorporar à catástrofe à sua narrativa?

MC: O ciclone apareceu e, de alguma maneira, ele vai perturbar e trazer um final para essa história. De fato, o livro já estava muito adiantado quando aconteceu o ciclone e como tu podes imaginar, meses antes não fazíamos ideia nenhuma do que ia acontecer. Mas nessa altura, eu sobrevoei a cidade, quando os aviões puderam começar a sobrevoar a cidade, e eu chorei no avião porque eu não vi a minha terra. A terra estava submersa. Sabia-se que ali estava a terra porque havia árvores que emergiam daquela superfície da água e para mim era um sinal. Eu perdi o chão da minha vida. Tudo aquilo que dava fundamento, sustento, essa coisa da ligação com a terra, estava cortado e eu pensei: ‘se calhar isso é um sinal de que esse livro tem de fazer o regresso aquilo que era antes’.

Perdeu o chão que o personagem tenta recuperar?

MC: Sim, era como se eu e meu personagem estivéssemos a trabalhar juntos nesse ciclo, no desfecho desse ciclo.

O personagem principal é poeta, que vai em busca da memória do pai, também poeta. Sua narrativa em prosa é caracterizada como poética. Você se sente mais poeta ou romancista?

MC: Eu sou um poeta que tem a ousadia de entrar no universo da ficção. Mas eu não acredito muito nessas fronteiras. Quem pensou na fronteira entre a prosa e a poesia não era certamente nem prosador nem poeta, alguém outro.

O seu penúltimo livro traduzido para o francês, também por Elisabeth Monteiro Rodrigues, “As areias do Imperador”, foi uma nova versão do original. Neste, também há a advertência de que a tradução foi feita a partir do original revisado por você. As traduções são uma oportunidade de reescrita?

MC: Sem dúvida, sobretudo quando se trabalha com uma tradutora da qualidade da Elisabeth que dialoga com o autor, que se interroga sobre coisas que às vezes passaram ao autor, ao revisor, ao primeiro editor do livro. Ela descobriu algumas incoerências que era preciso resolver. Em todos os casos, um tradutor reescreve um pouco um livro. Não há uma coisa chamada passagem de uma língua para a outra que seja completamente inocente, isto é, ela tem de reescrever em francês às vezes como se fosse ela própria a autora dessa versão.

Os paradoxos da colonização continuam te interpelando e seu próximo livro vai abordar as agruras de um colonizador português?

MC: É que a gente fala da colonização, do fenômeno colonial, como se fosse uma coisa do passado. Mas a colonização não foi superada no sentido da relação colonial que se tem com esses países ou que eles têm consigo próprios. Nós vemos em Moçambique e mesmo no Brasil, que tem 200 anos de independência, como essa herança colonial persiste e se quer reproduzir. Pode haver uma ruptura ao nível político. O país pensa que tem uma bandeira, tem um hino, mas do ponto de vista da sua relação com o mundo, da sua relação interior, de como as pessoas se definem numa certa hierarquia racial, social, tanto um como outro país que estou citando agora, Brasil e Moçambique, continuam a ter fortemente presente essa herança colonial.

Você tem com frequência comentado a situação política no Brasil. O que achou do resultado do primeiro turno?

MC: Eu, como tenho uma natureza pessimista, tinha uma grande esperança, mas não tinha uma grande convicção de que o Lula fosse ganhar. Acho que posso falar à vontade porque eu não sou brasileiro, não tenho que tomar opções partidárias, mas neste caso estamos perante uma situação que temos um candidato, que é o Lula, que representa a democracia, que representa o respeito pelas instituições, pela vida. Portanto, acho que a escolha agora não é só uma escolha política, mas uma escolha quase de civilização. Eu esperava muito que o Lula ganhasse, mas eu tinha também algum receio porque o problema não é só Bolsonaro, o problema é tudo que está por trás do Bolsonaro, esse Brasil que eu não sabia que existia e que existia com tanta dimensão.

Você falou das semelhanças entre Moçambique e Brasil, você teme que aconteça em seu país a mesma coisa que no Brasil?

MC: Acho que não é a mesma situação. Acontece em Moçambique um terrorismo de uma facção religiosa, do extremismo islâmico. O que existe no Brasil é um extremismo religioso também. Muito daquilo que é política no Brasil vem da força que essas igrejas evangélicas vêm tomando. Eu não sei dizer, não posso vaticinar nada, mas preocupa muito como isso cresça (em Moçambique), ao lado do reforço de um armamento da população. Portanto, há ali potencial para que se crie uma situação que pode ser mais violenta que o Brasil, que hoje já não é tão pouco violento assim.

No início de “O Mapeador de Ausências”, o personagem está deprimido e volta à cidade natal para tentar resolver esse problema e conseguir dormir. Você diz que é o seu livro mais autobiográfico. Como está o Mia Couto hoje?

MC: Na altura, eu percebi que eu não estava bem, que realmente, como acontecia com esse personagem, eu tinha dificuldades em ler, em me concentrar, em escrever e isso me preocupava muito. E quando fui ao médico, ele me disse que eu estava deprimido. Eu fiquei muito surpreendido porque eu tenho um temperamento que pensa que eu estava livre dessa condição, mas eu acho que não fico preocupado com isso, eu enfrento isso. Num mundo que está tão deprimido ele próprio, nenhum de nós pode estar normal. Há sempre uma ferida que fica olhando a situação de um mundo que a gente não sabe prever, não sabe entender.

Como diz um de seus personagens no final do livro, você tem de contar sua própria história para superar?

MC: Exatamente. A contação da sua própria história tem um efeito terapêutico enorme sobre nós próprios e sobre os outros, quer dizer, se eu escutar a sua história, eu fico melhor também. É uma espécie de um abraço que a gente dá.”

Você já ganhou vários prêmios literários, como o Camões, o principal prêmio da língua portuguesa. Este ano, aqui na França, você foi selecionado para os importantes prêmios “Femina” e “Melhor Livro Estrangeiro” e foi cotado para o Nobel. Qual é a sua expectativa?

MC: Nenhuma! Eu tenho essa relação com os prêmios que para mim eles não existem e quando existem, quando acontecem, obviamente eu fico muito feliz, mas não estou à espera deles. É uma espécie de um desencontro antecipadamente assumido.




Texto originalmente em RFI

Nota 
Os grifos, em amarelo, no texto acima foram feitos por mim. 
( Rosa Maria - Editora do Blog )


Jô Soares : Intelectual, escritor e artista brasileiro



 



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Nome completo : Erico Lopes Verissimo

Nascimento 17 de dezembro de 1905 em Cruz Alta, RS

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Escritor e tradutor


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Frases de Leon Tolstói


Leon Tolstoi - Declaração de Amor
 
Liev Nikoláievich Tolstói, mais conhecido como Leon, Leo ou Liev Tolstói, foi um escritor russo, amplamente reconhecido como um dos maiores de todos os tempos. (1828-1910).


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Mais Pedro Cardoso, por favor





Kiko Nogueira


Pedro Cardoso é a surpresa mais benfazeja da cena cultural brasileira em muito tempo.

Sua participação no programa “Sem Censura”, da TV Brasil, é um clássico instantâneo. Pedro foi divulgar seu romance romance “Livro dos Títulos”.

“Eu não vou responder esta pergunta e nem nenhuma outra porque quando cheguei aqui, hoje, e encontrei uma empresa que está em greve, e não participo de programas de empresas que estão em greve”, falou à apresentadora atônita.

Ele havia se encontrado com trabalhadores em greve da Empresa Brasil de Comunicação, EBC, na entrada.

Ouviu suas queixas pacientemente. Cogitou não entrar no estúdio, mas teve uma ideia melhor: registrar ao vivo sua indignação.

“Cabe a mim o maior respeito a todos vocês, aos que estão parados, aos que estão trabalhando e aos que estão aqui. Mas eu, diante deste governo do Brasil, tenho muita convicção de que as pessoas que estão fazendo essa greve estão cobertas de razão”, prosseguiu.

Em seguida, destroçou o presidente da EBC, Laerte Rimoli, ligado a Eduardo Cunha, que usou as redes sociais para atacar a atriz Taís Araújo por uma palestra que ela deu narrando a experiência de sua família com o racismo.

“O que eu soube também quando cheguei aqui, é que o presidente desta empresa, que pertence ao povo brasileiro, fez comentários extremamente inapropriados a respeito do que teria dito uma colega minha onde a presença do sangue africano é visível na pele”, começou.

“Porque o sangue africano está presente em todos nós, em alguns de nós está presente também na pele. Mas em todos nós ele está. Se esta empresa, que é a casa do povo brasileiro, tem na presidência uma pessoa que fala contra isso, eu não posso falar do assunto que vim falar”.

Educadamente, cumprimentou os demais convidados antes de puxar o carro. Do lado de fora, congratulou-se com os grevistas.

Cardoso, um ator consagrado, agora lançando um livro, é uma exceção entre seus pares, especialmente o vasto elenco de cretinos fundamentais e covardes da Globo.

Articulado, politizado, inteligente, sabe seu papel num momento desgraçadamente patético do país. Não tem também as amarras dos outros. Não quer e não precisa estar na novela das 9.

Fica a pergunta: onde ele estava antes? Não importa. Antes tarde que mais tarde.

Que inspire outros protestos em seu métier. E que o próximo seja na Globo. Vai demorar, mas acontecerá. Pode apostar.







Postado em DCM em 23/11/2017



Pedro Cardoso : “ Nunca imaginei habitar o nascimento do fascismo ”



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Pedro Cardoso um progressista engajado na luta por ideais progressistas









O ator, que está vivendo há dois anos em Portugal, disse que se incomoda muito com o pensamento da classe média e das elites que, no Brasil, defendem o capitalismo absoluto e, no exterior, elogiam o compromisso do Estado com a escola pública, os hospitais e as políticas sociais.

Para ele, aqueles que “fugiram” do Brasil encontraram em seus países de refúgio um Estado comprometido com escola pública, saúde pública, transporte público – políticas típicas de países inclinados a um pensamento mais socialista.




Cresça e divirta-se



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Martha Medeiros

Tenho viajado bastante para acompanhar algumas pré-estreias do filme Divã, baseado no meu livro homônimo. Delícia de tarefa, ainda mais quando a gente gosta de verdade do trabalho realizado, e esse filme realmente ficou enxuto, delicado e emocionante. Além disso, ainda consegue me provocar. A personagem Mercedes (vivida pela incrível Lilia Cabral) está fazendo análise e leva pro consultório muitos questionamentos sobre sua vida. Até que, passado um tempo, finalmente relaxa e se dá conta de que não há outra saída a não ser conviver com suas irrealizações. Diante disso, o analista sugere alta, no que ela rebate: “Alta? Logo agora que estou me divertindo?”.

Eu tinha esquecido dessa parte do livro, e quando vi no filme, me pareceu tão cristalino: um dos sintomas do amadurecimento é justamente o resgate da nossa jovialidade, só que não a jovialidade do corpo, que isso só se consegue até certo ponto, mas a jovialidade do espírito, tão mais prioritária. Você é adulto mesmo? Então pare de reclamar, pare de buscar o impossível, pare de exigir perfeição de si mesmo, pare de querer encontrar lógica pra tudo, pare de contabilizar prós e contras, pare de julgar os outros, pare de tentar manter sua vida sob rígido controle. Simplesmente, divirta-se.

Não que seja fácil. Enquanto que um corpo sarado se obtém com exercício, musculação, dieta e discernimento quanto aos hábitos cotidianos, a leveza de espírito requer justamente o contrário: a libertação das correntes. A aventura do não domínio. Permitir-se o erro. Não se sacrificar em demasia, já que estamos todos caminhando rumo a um mesmo destino, que não é nada espetacular. É preciso perceber a hora de tirar o pé do acelerador, afinal, quem quer cruzar a linha de chegada? Mil vezes curtir a travessia.

Dia desses recebi o e-mail de uma mulher revoltada, baixo-astral, carente de frescor, e fiquei imaginando como deve ser difícil viver sem abstração e sem ver graça na vida, enclausurada na dor. Ela não estava me xingando pessoalmente, e sim manifestando sua contrariedade em relação ao universo, apenas isso: odiava o mundo. Não a conheço, pode sofrer de depressão, ter um problema sério, sei eu. Só sei que há pessoas que apresentam quadro depressivo e ainda assim não perdem o humor nem que queiram: tiveram a sorte de nascer com esse refinado instinto de sobrevivência.

Dores, cada um tem as suas. Mas o que nos faz cultivá-las por décadas? Creio que nos apegamos com desespero a elas por não ter o que colocar no lugar, caso a dor se vá. E então se fica ruminando, alimentando a própria “má sorte”, num processo de vitimização que chega ao nível do absurdo. Por que fazemos isso conosco?

Amadurecer talvez seja descobrir que sofrer algumas perdas é inevitável, mas que não precisamos nos agarrar à dor para justificar nossa existência.