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“ Ainda Estou Aqui ” : Jennifer Lopez diz que filme de Walter Salles transformou sua vida



Aatriz e cantora Jennifer Lopez revelou, durante entrevista ao podcast Films To Be Buried With, apresentado por Brett Goldstein, que o filme brasileiro “Ainda Estou Aqui” , vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional, transformou a sua vida.

Protagonizado por Fernanda Torres, no papel de Eunice Paiva, e dirigido por Walter Salles, o longa narra a trajetória de Eunice, que busca provar que seu marido, o deputado Rubens Paiva, foi assassinado pelo Estado durante a ditadura militar (1964-1985) e que tal ato seja reconhecido pelo aparato estatal.

De acordo com Jennifer Lopez, ela assistiu a “Ainda Estou Aqui” em um momento difícil de sua vida, quando tinha acabado de se divorciar do ator Ben Affleck:
“Eu estava doente, com uma gripe muito forte, e meu pai veio ao meu quarto me visitar. Eu perguntei: ‘Pai, você quer assistir a esse filme comigo?’ Ele disse: ‘Claro’. E meu pai não é o cara que senta para assistir a um filme. Acho que, porque eu estava doente, ele ficou tipo: ‘Vou sentar aqui, ficar aqui com você por algumas horas’.”
Em seguida, Jennifer Lopez afirmou que a determinação de Eunice Paiva em buscar justiça e memória pelo marido e, ao mesmo tempo, criar os filhos, a tocou profundamente:
“Há aquela cena no começo em que eles estão todos juntos na praia, e aí essa mulher passa a vida toda tentando provar que o marido dela era real, que ele não desapareceu simplesmente. Ela queria a certidão de óbito […] Ela seguiu firme em seu caminho, criando todas aquelas crianças sozinha. No final, eles voltam àquela cena dela filmando [o marido] na praia… eu vou chorar. Ela está de mãos dadas com os filhos e tudo mais […] algo aconteceu na minha cabeça e eu comecei a chorar pensando nos meus filhos, na minha experiência com o meu pai. Tudo veio de uma vez só.”
Jennifer Lopez então revelou que “Ainda Estou Aqui” mudou a sua vida:
“Minha vida mudou naquele momento. Às vezes, quando somos crianças, não sabemos se nossos pais nos amam, ainda que saibamos que eles nos amam. Sabe? Ele sabia que eu precisava ouvir aquilo [o pai havia dito que sempre a amou], e isso curou uma parte de mim que precisava ser curada para que eu pudesse seguir em frente, deixar essa parte da minha vida e esses tipos de relacionamentos […] Esse filme me mudou, me ajudou a crescer e me curou de certa forma. Também porque meu pai estava lá e, graças a Deus, ele estava lá e assistimos a esse filme. Não acho que tenha sido uma coincidência.”






Assista ao depoimento de Jeniffer Lopez sobre Ainda Estou Aqui:



Uma guerreira e o Oscar para o Brasil


 Dilma Rousseff em 1970, presa pela Ditadura Militar, em frente a seus inquisidores 


 

Vídeos : Fernanda Torres brilha no Jimmy Kimmel, talk show dos EUA, e é aplaudida de pé

Fernanda Torres concede entrevista ao popular Jimmy Kimmel, popular talk show americano. Foto: Reprodução /Jimmy Kimmel Live no Youtube

Confira outros momentos da atriz no talk show:








Ainda estamos aqui. Por Moisés Mendes




Em novembro de 2012, o jornalista José Luís Costa, de Zero Hora, passou um dia sentado na 14ª Delegacia da Polícia Civil de Porto Alegre. Sua tarefa: copiar textos de mais de 200 folhas de papel do acervo macabro do coronel reformado do Exército Júlio Miguel Molinas Dias.

Molinas, ex-diretor do DOI-Codi, havia sido assassinado a tiros em 1º de novembro, na frente de casa, em Porto Alegre, e a polícia encontrara em seu escritório uma pasta com registros da ditadura.

Zé Luís copiou tudo à mão, sem pressa, da manhã à noite, porque o delegado Luis Fernando Martins Oliveira fizera um pedido: nada podia ser fotografado. Eram provas de crimes cometidos pelos militares.

A principal prova encontrada era o registro da entrada do ex-deputado Rubens Paiva no DOI-Codi, na Tijuca, no Rio, no dia 21 de janeiro de 1971. O papel estava lá. Um registro da ‘Turma de Recebimento’, com timbre do Exército.

Ficava provado que Paiva havia sido preso, um dia antes, sendo depois transferido de um quartel da Aeronáutica e ‘recebido’ em um dos mais famosos centros de repressão e tortura da ditadura. E nunca mais seria visto.

Zé Luís ganhou naquele ano o Prêmio Esso nacional de jornalismo, com uma série de reportagens publicada a partir dessa manchete de Zero Hora, de 22 de novembro de 2012: “Deputado Rubens Paiva ficou preso no DOI-Codi”.

Logo depois, no dia 27, o governador Tarso Genro entregou à psicóloga Maria Beatriz Paiva Keller, filha do ex-deputado, uma cópia do documento. A ditadura deixara o rastro de que havia assassinado o pai dela.

A morte do coronel Molinas, por dois policiais militares que tentaram furtar as armas que ele tinha em casa, levou à prova do que a ditadura nunca admitia. Na farsa dos militares, Paiva teria sido sequestrado e morto por companheiros da luta antiditadura, quando se dirigia para um depoimento no quartel da 3ª Zona Aérea, perto do Aeroporto Santos Dumont.

Mas o registro da Turma de Recebimento tinha detalhes dos objetos pessoais e das roupas de Paiva. Ele havia estado ali, onde torturavam e matavam presos políticos.

Molinas guardara, como souvenir do terror, o documento que registrava a prisão e outros papéis com anotações dos desmandos que cometiam em nome do combate à subversão.

O coronel não era o diretor do DOI-Codi em 1971. Assumiu a comando do centro de torturas algum tempo depois e se sentiu no direito de ser o guardião da papelada. Mas já era o chefão do DOI-Codi quando do atentado do Riocentro em 30 de abril de 1981.

Entre os papéis, o jornalista de Zero Hora encontrou uma espécie de diário manuscrito, no qual o coronel anotava articulações e conversas sobre a estratégia para livrar os militares da acusação de que haviam planejado o atentado. Havia até uma cartilha com lições sobre serviços de espionagem.

Quando deixou o Exército e foi morar em Porto Alegre, Molinas decidiu que tudo aquilo era dele. Guardou os papéis na pasta que o delegado achou na casa e um dia, já sabendo que ali estava o registro da entrada de Paiva, confiou ao jornalista.

Por que recontar tudo isso agora? Para que todos os que forem ver o filme ‘Ainda estou aqui’, de Walter Salles Júnior, sobre o drama da advogada Eunice Paiva, viúva de Rubens Paiva, saibam que o jornalismo ainda resiste.

José Luís Costa lembra-se da pasta verde, de plástico. Lembra-se do que estava escrito na capa: DOI 1. E do endereço: Rua Barão de Mesquita nº 425. O Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) funcionava no Quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército.

Zé Luís lembra-se do choro de Maria Beatriz quando viu o documento no Palácio Piratini, em Porto Alegre. E do que ela disse aos jornalistas: “Tenho um pouco de medo de saber a verdade. Pode ter acontecido alguma coisa horrível com ele”.

Há coisas horríveis que nunca ficaremos sabendo sobre Rubens Paiva e todos os assassinados e desaparecidos da ditadura. Por que, quando e como mataram Rubens Paiva? Onde se desfizeram do seu corpo?

Vejam o filme e pensem na luta de Eunice e dos filhos e pensem também no jornalismo que ainda sobrevive porque tem perguntas a fazer, como Eunice fazia, e não desiste de encontrar respostas.

Pensem que aos criminosos impunes da ditadura, dos grandes chefes aos torturadores, não poderão se juntar os ainda impunes civis e militares da tentativa de golpe liderada por Bolsonaro. Não podem, não devem, não irão se juntar.

Pela luta e pela memória de Rubens Paiva, de Eunice e de todos os que foram e são perseguidos pelo fascismo, ainda estamos aqui.