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Nova versão de "O Morro dos Ventos Uivantes estreia nos cinemas brasileiros



Nesta quinta-feira (12), “O Morro dos Ventos Uivantes”, nova adaptação do clássico homônimo da literatura inglesa, estreia nas telonas brasileiras.

Dirigido e escrito por Emerald Fennell – vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original por “Bela Vingança” (2020) –, essa versão promete trazer uma nova roupagem à trágica e apaixonante história que marcou gerações.

Desde o início de seu desenvolvimento, Fennell vem trabalhando a adaptação para que ela dialogue mais diretamente com o público contemporâneo. A tática acabou se refletindo no título do filme, que recebeu aspas, confundindo os fãs e levantando teorias sobre do que se tratava o novo longa.

Em entrevista recente para a Fandango, maior tiqueteira de cinema dos Estados Unidos, a diretora encerrou o mistério ao explicar o uso da pontuação no título:

“Para mim, não acho que seja possível adaptar algo tão denso, complicado e difícil como esse livro. Eu não posso dizer que estou fazendo ‘O Morro dos Ventos Uivantes’. Não é possível. O que posso dizer é que estou fazendo uma versão dele. Tem uma versão que eu me lembro de ler, que não é muito real, e tem uma versão que eu queria que acontecesse, que nunca aconteceu. Então, é ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ e não é. Mas, realmente, eu diria que qualquer adaptação de um livro, especialmente de um como este, deveria ter aspas nela”.

Publicado em 1847, “O Morro dos Ventos Uivantes” conta a história de Catherine Earnshaw e Heathcliff, um garoto órfão adotado pelo pai da protagonista. Desde a infância, os dois desenvolvem uma conexão profunda, embora marcada por fatores externos, que os impedem de ficarem juntos. Quando Catherine decide se casar com outro homem, Heathcliff é consumido pela dor e raiva e decide fugir. Anos depois, ele retorna, rico, influente e determinado a se vingar de todos que considera responsáveis por sua infelicidade.

A obra já recebeu diversas adaptações para o cinema e para a televisão ao longo dos anos, sendo a do diretor William Wyler, lançada em 1939, a mais memorável. Entre as recentes, destacam-se a minissérie de 2009, protagonizada por Tom Hardy e Charlotte Riley, e um filme de 2012, com James Howson e Kaya Scodelario nos papéis principais.

Estrelado por Margot Robbie ('Barbie') e Jacob Elordi ('Priscila'), o filme também conta com a participção de diversos outros talentos conhecidos, como Alison Oliver (‘Conversa Entre Amigos’), Shazad Latif (‘Magpie’) e a indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, Hong Chau (‘A Baleia’).

O Morro dos Ventos Uivantes” é uma produção da LuckyCharp, realizada por meio de uma parceria com a Lie Still e a MRC Film.




Entre pseudônimos e tragédias: 
4 fatos sobre Emily Brontë e seu livro 
"O Morro dos Ventos Uivantes"

A obra-prima de Emily Brontë esconde segredos desde sua criação. Conheça a história por trás de um dos romances mais passionais e revolucionários da literatura.

Um retrato de Emily Brontë datado de 1873. A autora de "O Morro dos Ventos Uivantes" morreu ainda bastante jovem, aos 30 anos de idade.

Nem todas as boas obras literárias conseguem alcançar o cobiçado status de clássico, seguindo relevantes para a posteridade. Mas neste seleto grupo está, definitivamente, o romance “O Morro dos Ventos Uivantes" (em inglês “Wuthering Heights”), escrito em 1847 pela autora inglesa Emily Brontë, e que já teve diversas adaptações para o cinema, bem como influenciou gerações de outros escritores.

“O Morro dos Ventos Uivantes” narra uma história de amor apaixonada, mas também destrutiva, ambientada na virada do século 19, e protagonizada por Catherine Earnshaw e Heathcliff. Eles são personagens de duas famílias de latifundiários do interior da cidade de Yorkshire, na Inglaterra – uma área conhecida por suas paisagens lúgubres e terrenos alagadiços que dão uma impressão fantasmagórica para o local.

“Com seu tema de amor obsessivo, ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ é, às vezes, classificado como um romance, mas suas descrições sombrias da natureza e elementos de histórias de fantasmas o tornam uma ficção gótica clássica”, define a Encyclopedia Britannica (plataforma de conhecimentos gerais do Reino Unido) sobre a obra.

De olho na obra de Brontë, que está novamente em alta, National Geographic selecionou algumas curiosidades sobre a autora e seu livro, que só fazem aumentar a mística em torno deste clássico. Acompanhe a seguir.

Capa do livro "O Morro dos Ventos Uivantes", um clássico do século 19 publicado até os dias de hoje.

1. Emily Brontë usou um pseudônimo para publicar “O Morro dos Ventos Uivantes”

Em um primeiro momento, Emily assinou sua obra-prima com um nome masculino: Ellis Bell. Mas esta não foi a única vez que ela usou um pseudônimo. Ao lado da irmã Charlotte também publicou um livro de poesias sob a assinatura de Irmãos Bell (que abarcava os nomes Ellis, Acton e Currer), informa a NatGeo Espanha em um artigo dedicado à escritora de “O Morro”.

Em 1850, Charlotte Brontë “pôs fim às especulações sobre o sexo dos irmãos Bell”, explica a fonte espanhola. A escolha dos pseudônimos – que eram Ellis para Emily, Acton para Anne e Currer para a própria Charlotte – estava conectada com o fato de as mulheres não serem respeitadas como escritores na época.

“Não gostávamos de nos declarar mulheres porque tínhamos a vaga impressão de que as autoras podiam ser vistas com preconceito”, chegou a declarar Charlotte certa vez, continua a NatGeo Espanha. Mas ao contrário do que se pregava, o patriarca da família – Patrick Brontë – “incentivou sua educação e criatividade [das filhas], apesar das restrições sociais impostas às mulheres da época", diz um artigo sobre as três irmãs publicado pela plataforma EBSCO (uma das mais influentes do mundo no setor de informação científica, acadêmica e biblioteconômica).

Como resultado, ainda que as irmãs Brontë tenham assinado uma concisa quantidade de obras, é certo dizer que elas se tornaram nomes influentes no século 19 – alcançando reconhecimento até os dias de hoje por suas contribuições importantes à literatura ocidental.

Uma pintura que retrata as três irmãs Brontë – Anne, Emily e Charlotte (da esquerda para a direita). Ela foi feita em 1834 por Branwell Brontë, um dos irmãos da escritora.

2. Emily Brontë tinha irmãs que também eram escritoras

De acordo com um artigo da National Geographic Espanha sobre o tema, Emily Brontë era considerada uma pessoa tímida, “de caráter retraído e enigmático”. O texto da NatGeo espanhola cita o trabalho da biógrafa alemã Winifred Gérin – uma das mais notórias estudiosas da família Brontë – e que descobriu que Emily não teve muitas amigas e era considerada “mal-humorada".

Emily viveu toda a vida com a família e vale citar, em especial, sua convivência com as irmãs Charlotte e Anne, que também eram escritoras. Havia ainda um irmão no clã – o jovem Branwell Brontë. Mas das três irmãs escritoras, somente Charlotte Brontë foi bem-sucedida quando ainda estava viva, já que “Jane Eyre” fez sucesso assim que foi lançada. Ela ainda lançou outros três livros, sendo a mais prolífica das irmãs Brontë.

Já Anne conseguiu publicar apenas dois romances – “Agnes Grey” e “A Locatária de Wildfell Hall”, e “morreu antes de atingir seu pleno potencial como escritora”, continua a fonte da EBSCO.

Página inicial da edição original de "O Morro dos Ventos Uivantes" (1847) com o pseudônimo Ellis Bell usado por Emily Brontë. 

3. “O Morro dos Ventos Uivantes” trouxe temas polêmicos – e até então inéditos – e não fez sucesso inicialmente.

O artigo de NatGeo Espanha reforça a importância do relato social que as páginas do romance de Brontë trouxeram. “A partir da paixão de Catherine e Heathcliff são mostradas situações novas até então, como o maltrato, o alcoolismo ou a decisão de uma mulher”, diz o texto.

Já de acordo com a Britannica, quando foi lançada, a obra-prima de Emily Brontë foi considerada “imoral”, “vulgar” e “pouco artística” por muitos críticos da época. Somente após a morte de Emily Brontë por tuberculose aos 30 anos de idade, cerca de um ano após lançar “O Morro dos Ventos Uivantes” (seu único livro) – a opinião pública geral em torno da obra começou a mudar e seu talento criativo passou a ser reconhecido, continua a plataforma de conhecimento.

Vale ressaltar que tal como em “O Morro dos Ventos Uivantes”, toda a família Brontë viveu em Yorkshire do nascimento à morte.

4. “O Morro dos Ventos Uivantes” e “Jane Eyre” são obras que estão conectadas. “O Morro dos Ventos Uivantes” foi publicado por Emily Brontë em dezembro de 1847, apenas dois meses depois do lançamento de “Jane Eyre”, obra de sua irmã Charlotte – outra história que se tornaria um clássico da literatura gótico-romântica.

Logo em seguida foi a vez de Anne Brontë lançar “Agnes Grey”. Segundo o artigo da plataforma EBSCO, as três obras “exploram temas de moralidade, crítica social e as lutas das mulheres”.

“Apesar de enfrentarem tragédias pessoais, incluindo a morte prematura de seus irmãos e suas próprias lutas com a saúde, as Brontë deixaram um legado duradouro. Suas obras continuam a ressoar e desafiar os leitores com suas representações de personagens femininas fortes e complexas e suas críticas às normas sociais", defende o artigo.






Júlio Verne : o homem que inventou o futuro ( antes de todo mundo )



Hoje, 08 de fevereiro, comemoramos o aniversário de um sujeito que provavelmente olharia para o nosso mundo moderno, coçaria a barba e diria:"Eu avisei".

Sim, estamos falando de Júlio Verne, o escritor francês que praticamente transformou a imaginação em um laboratório de protótipos do futuro. Antes mesmo de existir Wi-Fi, GPS ou viagem espacial de verdade, ele já estava lá, rabiscando ideias que fariam qualquer engenheiro levantar a sobrancelha e qualquer leitor sonhar alto.

Um escritor ou um viajante do tempo?

Nascido em 1828, Júlio Verne não tinha acesso à internet, inteligência artificial ou vídeos explicativos no YouTube - e mesmo assim conseguiu prever submarinos elétricos, viagens à Lua, exploração dos oceanos e até algo muito parecido com helicópteros e arranha-céus modernos. Coincidência? Achamos que não.

Seus livros não eram apenas histórias de aventura. Eram experimentos mentais, misturando ciência, curiosidade e uma boa dose de ousadia. Ele fez da literatura um verdadeiro passaporte para o desconhecido.

Obras que moldaram o imaginário moderno

Alguns títulos são praticamente obrigatórios no "manual da imaginação humana":

Vinte Mil Léguas Submarinas

O Capitão Nemo e o submarino Nautilus surgem décadas antes da tecnologia tornar isso possível. Hoje, submarinos modernos fazem exatamente o que Verne descreveu - só com um pouco mais de botão e menos drama literário.

Da Terra à Lua

Publicado em 1865, descreve uma missão espacial incrivelmente parecida com as viagens reais feitas mais de 100 anos depois. Local de lançamento? Flórida. Parece familiar? 

Volta ao Mundo em 80 Dias

Uma celebração da globalização antes mesmo de ela existir. Hoje, fazemos isso em horas - e ainda reclamamos do atraso do voo.

Viagem ao Centro da Terra

Ciência, aventura e aquela sensação deliciosa de "isso é impossível. mas e se não fosse?"

As invenções que viraram realidade

Júlio Verne não inventou máquinas no papel apenas por diversão. Ele estudava ciência, lia artigos, acompanhava avanços tecnológicos e extrapolava com inteligência. O resultado?

Submarinos avançados;

Foguetes e exploração espacial;

Trajes de mergulho;

Comunicação e transporte em escala global.

Tudo isso faz parte da nossa vida moderna - e tudo isso já estava, de alguma forma, escondido nas páginas de seus livros.

Por que Júlio Verne ainda importa hoje?

Porque ele nos lembra de algo essencial : imaginar é o primeiro passo para criar.

Em um mundo cheio de telas, algoritmos e respostas rápidas, Júlio Verne nos convida a fazer perguntas grandes, sonhar sem pedir permissão e acreditar que o impossível é só uma ideia que ainda não foi testada.

Ele influenciou cientistas, engenheiros, escritores, cineastas e qualquer pessoa que já olhou para o céu e pensou: "E se?"

Um brinde ao visionário

Neste 08 de fevereiro, celebrar Júlio Verne é celebrar a curiosidade, a coragem intelectual e o prazer de imaginar futuros melhores (e mais divertidos).

Então, se hoje você usa tecnologia de ponta, viaja pelo mundo ou se encanta com a exploração espacial, lembre-se:

Talvez tudo isso tenha começado com um escritor, uma caneta e uma ideia ousada demais para o seu tempo.







Os 250 anos de Jane Austen : por que a autora de “Orgulho e Preconceito” está mais viva do que nunca?



Um retrato de Jane Austen baseado em um desenho feito por sua irmã Cassandra.

Especialista espanhola explica como Austen criou um “manual de inteligência emocional” que dura séculos através das personagens de seus livros e capturou o que ninguém via: a vida cotidiana como uma grande aventura.


Publicado 15 de dez. de 2025, 16:49 BRT, Atualizado 17 de dez. de 2025

O que faz um clássico se tornar um clássico? Essa alquimia de relevância artística e atemporalidade segue um mistério, mas não no caso da escritora inglesa Jane Austen. A importância da autora de “Orgulho e Preconceito” e “Razão e Sensibilidade" parece só aumentar – e a cada 16 de dezembro, data de seu aniversário, é celebrado o “Jane Austen's Day” com mais fãs se somando a uma legião de admiradores.

Em 2025 se comemora os 250 anos do nascimento de Jane Austen. Considerada a criadora dos alicerces das histórias românticas tal como as conhecemos, ela também moldou a narrativa literária inglesa graças a seu texto fluído, preciso e de fácil compreensão. As histórias protagonizadas por suas heroínas (como a espirituosa Elizabeth Bennet, de “Orgulho e Preconceito”) mostram o olhar afiado de Austen, bem como seu senso de humor refinado e sarcástico, e seguem ganhando adaptações para o cinema, o teatro e o streaming.

Jane também é referência para os autores modernos. Entre eles está a escritora espanhola Espido Freire, de 51 anos, nascida na cidade de Bilbao e uma especialista em Jane Austen, a quem revisita vez ou outra em seus livros. É o caso de sua mais recente obra – “Mi tía Jane” (“Minha tia Jane”), uma biografia da autora britânica baseada em fatos e documentos históricos e contada pelo olhar do sobrinho de Jane – James Edward Austen.

National Geographic entrevistou a escritora com exclusividade e por ocasião dos 250 anos de Jane Austen, para entender um pouco sobre o seu legado e a relevância da inglesa. “Jane Austen não é uma autora complexa, nem barroca: ela vai direto ao osso. E em um momento em que a atenção de quem lê dura apenas uns segundos, Jane é perfeita tanto com suas frases como com as cenas que inspira”, garante Freire. A seguir, confira a conversa completa.


“Razão e Sensibilidade”, “Orgulho e Preconceito”, “Mansfield Park” e “Emma” foram os quatro livros lançados em vida por Jane Austen. Sua família ainda publicou duas outras obras no mesmo ano em que a escritora morreu, já após ela ter falecido. Foto de Charlotta Wasteson/Creative Commons (CC BY 2.0)

Por que Jane Austen ainda é relevante no século 21?

NatGeo – Mesmo mais de 200 anos depois, parece que Jane Austen vem se tornando mais e mais popular. Na sua opinião, o que explica o fato de ela seguir ganhando fãs e leitores jovens, e concorrendo com o ambiente digital?

Espido Freire – Os jovens sempre foram jovens e, muitas vezes, a gente se esquece que, tanto eles como as crianças, têm muito mais em comum entre si do que nós, os adultos. E sobretudo na época da adolescência ou da pós-adolescência onde a rebeldia, a necessidade de buscar um ideal, o enamoramento mais forte, a capacidade de fazer sacrifícios e também uma maior sensibilidade são comuns a praticamente toda a juventude de todas as épocas do mundo.

Mas com a obra de Jane o que ocorre é que, nos finais do século 18, princípios do 19, com o romantismo muito perto – ainda que Jane Austen fosse neoclássica – ele começa a se manifestar de uma forma que é a mesma que a nossa hoje. Isto é, se começa a falar de liberdade, da importância da identidade pessoal, da desobediência aos mais velhos e da necessidade de buscar o próprio caminho.

Ainda que os jovens no passado sentissem parecido, aquilo que era pedido a eles era obediência e sacrifício de si mesmos – ou do contrário eles receberiam terríveis castigos. Pense no que aconteceu com Romeu e Julieta, por exemplo. As histórias de Jane Austen, por sua vez, falam de jovens que têm que enfrentar determinadas dificuldades – que não são uma guerra ou ser abandonado em um bosque; não são as horríveis questões épicas, senão aquilo que todos nós encontramos no nosso dia a dia, na nossa casa ou na nossa cidade.

Então, mesmo sem recorrer a grandes aventuras, Jane nos mostra que aquilo que acontecia com a protagonista – e suas irmãs, primas, sobrinhas – não envelheceu porque sempre há uma conexão humana entre uma geração e outra. As mães atrapalhadas, os pais distantes, a sensação de que você é a única que mantém um pouco o juízo na casa – ou o sentimento de amar alguém e ao mesmo tempo em que você se irrita com essa pessoa constantemente.


À esquerda: Capa do livro "Mío Tía Jane", de Espido Freire.

À direita:O livro "Orgulho e Preconceito" é considerado pela escritora Espido Freire como a obra mais perfeita da lista de livros publicados por Jane Austen. fotos de Divulgação

Afinal, quem era Jane Austen?

NatGeo – Austen sempre foi muito mordaz em suas observações, mas já teve que a descreveu como uma solteirona amargurada. Você acha que seu trabalho também ajuda a revelar quem era, na verdade, Jane Austen?

Espido Freire – Bom, os leitores me dizem que sim, principalmente as mulheres. Elas contam que tinham outra ideia sobre quem era a Jane e que depois de lerem seus livros isso mudou. Quer dizer, ela tem frases tão irônicas, tão divertidas; não é uma “senhora” ranzinza que estava em casa escrevendo sozinha. Era alguém que estava aberta ao mundo e tinha uma capacidade incrível para traçar o caráter humano.

Também é preciso levar em conta que, nos últimos tempos, temos começado a ler de uma forma muito mais intensiva as autoras femininas, porque se publicam mais seus livros, se estuda mais sobre elas. E o mundo de Jane Austen é bastante atrativo: é um mundo do equilíbrio, do conhecer-se a si mesma; um mundo em que o amor não é uma tormenta que te arrasa, senão uma brisa que te acompanha. É algo que te faz melhor e melhor pessoa.

Acredito que as novas gerações, inclusive os millennials, que têm uma enorme preocupação por afastar-se de questões tóxicas, encabeçam, muitas vezes, rejeições evidentes ao amor romântico (ainda que sigam lendo e consumindo muito amor romântico), ler Jane Austen pode ser muito refrescante. É a sensação de que não há por que estar constantemente ao limite.


A casa de Jane Austen que hoje é um museu fica em Chawton, nos arredores de Alton, Hampshire, Inglaterra.Foto de Creative Commons (CC BY-SA 4.0)

Como autores e leitores se conectam com a autora de “Orgulho e Preconceito”

NatGeo – Qual é a sua relação pessoal com Jane Austen?

Espido Freire – Meu estudo e proximidade com Jane Austen começaram quando eu estava na faculdade de filologia inglesa e já tinha lido alguns de seus romances. Anos mais tarde, depois de já ter publicado alguns livros, surgiu um desejo de escrever sobre escritoras. Eu queria “devolver” parte do que elas me tinham dado e pertencer também a uma linhagem de mulheres que escrevem.

Assim surgiu a ideia de viajar para os lugares os quais Jane Austen e também as irmãs Brontë viveram. Meu primeiro livro sobre Austen também incluía as duas e esses destinos. A partir de então, a demanda por parte dos leitores por saber mais sobre Jane nunca cessou. E, nos últimos cinco anos, aumentou de uma maneira muito evidente.

Então, uma vez que você encontra uma temática que interessa aos leitores, é um tesouro, certo? Meu último livro, "Minha tia Jane”, também é o primeiro romance que escrevo realmente sobre Jane Austen (o livro anterior era um ensaio). Aqui, a maneira com que o narrador – neste caso James Edward, que é um rapaz de 19 anos sobrinho de Jane – vai se aproximando da história me faz ocultar coisas que eu sei sobre a escritora, porque James não pode já saber de tudo num primeiro momento.

Isso é muito interessante porque obriga a mim e aos leitores a voltar à tia Jane, à Jane solteira, à Jane que era o membro menos importante de sua família. E, ao mesmo tempo, sentir a surpresa que Edward deve ter sentido quando ele e todos começaram a se dar conta de que a “tia Jane” era muito mais do que eles imaginavam. No final, o livro fala de um tema muito delicado, que é o de não conhecermos as pessoas por quem temos afeto, de não conhecermos as pessoas da nossa própria família.

Já meu romance favorito de Jane sempre varia; mas agora eu diria que é “Persuasão”. Trata-se de uma história sobre segundas oportunidades; é o romance do arrependimento, das pessoas que não dizem ‘se voltasse a nascer faria tudo igual’. Ao contrário. Nesse livro ela diz que, se há uma segunda oportunidade, as coisas podem ser feitas melhor e para mim isso é encantador.

No entanto, acho que o livro mais perfeito de Jane, o melhor armado, talvez seja “Orgulho e Preconceito”, sua obra mais popular. É muito bem escrita, divertida, brilhante, luminosa… Desde os diálogos ao arranque da história; da psicologia da personagem às cenas, trata-se de uma grande obra clássica.
“Ler Jane Austen pode ser muito refrescante. É a sensação de que não há por que estar constantemente ao limite.”  Espido Freire - Escritora espanhola
Quem foi Jane Austen e por que ela é importante

Nascida em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, Hampshire, no interior da Inglaterra, Jane Austen é considerada o nome literário que “deu ao romance seu caráter distintamente moderno ao retratar pessoas comuns em sua vida cotidiana”, como detalha Enciclopaedia Britannica (plataforma de conhecimentos gerais do Reino Unido).

Apesar do sucesso que ronda seu nome e seu legado, Austen só publicou quatro livros na carreira. São eles “Razão e Sensibilidade” (1811), “Orgulho e Preconceito” (1813), “Mansfield Park” (1814) e “Emma” (1815). Já “Persuasão” e “A Abadia de Northanger” foram originalmente publicados juntos, de maneira póstuma por sua família, em 1817.

Apesar de ser conhecida por suas novelas românticas, Jane Austen nunca se casou oficialmente, focando seu tempo e talento na escrita e na análise do cotidiano. Seu olhar apurado para captar as sutilezas dos relacionamentos amorosos e demonstrar como os matrimônios eram verdadeiros negócios jamais envelheceu.

Jane morreu em 18 de julho de 1817, em Winchester, Hampshire, também na Inglaterra, mas a cada ano milhares de mulheres se reúnem para comemorar sua vida e obra na celebração que ficou conhecida como “Jane Austen Day". Ocorrida anualmente em 16 de dezembro, a efeméride contempla encontros literários além de bailes de época e festivais.


*A entrevista foi feita por Luciana Borges, Editora Sênior de National Geographic Brasil e LATAM.




👆Orgulho e Preonceito - Série de 1995 - Está no YouTube

👆Orgulho e Preconceito - 2005 - Saiu da Netflix, mas está no 
Telecine e YouTube

👆Orgulho e Preconceito - 2026 - Estreia na Netflix

👆Razão e Sensibilidade - 1995 - Está na Netflix

👆Emma - 1996

👆Persuasão - 2007


Suave é a noite


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Somos solidários ? Crônica e comentário de leitor


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Juremir Machado da Silva

Um cachorrinho entrou na ambulância para acompanhar o dono. Um desempregado enfrentou um pitbull para salvar uma criança. Pessoas servem refeições sob os viadutos para moradores em situações de rua. Uma mulher faz protesto solitário contra os bilhões destinados ao fundo eleitoral que alimentará campanhas políticas cheias de truques publicitários. Como é a vida nestes tempos trepidantes e tecnológicos?

Estávamos em Santa Catarina numa linda pequena praia numa zona de proteção ambiental. Ao final da tarde, conseguimos, contra todas as expectativas, um Uber para ir a uma praia vizinha com uma faixa de areia maior para caminhar. O motorista não podia nos esperar para o retorno. Tentamos obter um carro de aplicativo até que os celulares começaram a sinalizar que ficariam sem bateria. Era um bairro fashion de imensas casas, carros poderosos e muita gente nas ruas, mas nada de bares, salvo uma padaria. A estrada de volta para a nossa praia, cheia de curvas, não tinha acostamento. Era um convite para um acidente.

Táxis não havia. A noite caía no último dia do ano. Parou uma camionete. Fui conversar com o motorista. Ele disse que estávamos na mesma pousada, a uns 15 minutos de carro dali, mas que não podia nos levar por ter pressa de chegar a uma festa, a uns 15 minutos na direção contrária, onde passaria a noite. Tratei de mostrar-lhe que entendia perfeitamente a situação. A pousada não tinha carro disponível que soubéssemos. Ainda assim, se nada rolasse, ligaríamos para pedir resgate. Tão perto e tão longe. Meu celular se apagou. O da Cláudia ainda resistia. Surgiu, então, a esposa do homem da camionete. Ela saía da padaria com as últimas encomendas para a festa. Ficou constrangida com a nossa situação. Quando já se preparavam para sair, ela nos acenou com um papel: o telefone de um senhor que fazia corridas na região.

Ligamos. O homem que atendeu nos prometeu aparecer em 40 minutos. Será que viria? Enquanto esperávamos, sentados na calçada, víamos gente passar. Ninguém parecia nos notar. Comecei a me sentir profundamente infeliz. Refletia: eu teria levado aquele homem à pousada se fosse eu a estar de carro e ele a procurar uma saída para a bobagem em que se metera? É fácil acusar o egoísmo alheio quando se está em apuros. Faltando dez minutos, usamos o último restinho de bateria para conferir com Seu Antônio se, de fato, ele viria. Confirmou. No máximo em 20 minutos. Passaria por nós, acenaria, seguiria na direção oposta com passageiros e voltaria para nos pegar. Assim aconteceu. Precisamente.

O nosso problema era tão pequeno. Mesmo assim, desagradável. Como teríamos resolvido se o desconhecido Seu Antônio, fazendo corridas havia apenas 15 dias, não fosse um homem de palavra, que queria, além de tudo, apenas 20 reais pela viagem? Aprendi algumas pequenas coisas: não confiar cegamente na sorte e em aplicativos, ter fé nos homens simples, negociar melhor a volta quando a ida já é duvidosa. Uma coisa ainda não resolvi: eu teria voltado para deixar o outro na pousada?

*

Pelotas, 13 de janeiro 2020.

Caro Juremir, lendo a tua crônica de hoje no Correio do Povo, ao final respondi: - eu teria voltado. Teria mesmo? E nesse momento saltou de um escaninho da memória uma lembrança que estava esquecida. Década de 80, eu, jovem Veterinário, trabalhava na Cooperativa de Lãs de Santa Vitória do Palmar, e quase sempre me deslocava ao interior do município para dar atendimento aos associados nas suas diversas demandas que se relacionavam à área animal. De modo geral, retornava à sede do município ao final da tarde ou ao cair da noite. Nesse dia, de um verão calorento, já de noite, voltava cansado, trabalhara o dia inteiro perto da Ramada, distante uns 40 km da sede municipal, ansiando pela chegada em casa, mas tendo que ainda deixar o carro e meu equipamento veterinário na Cooperativa, vejo na estrada de chão, um carro parado, capô levantado e dois homens debruçados sobre o motor. Instantaneamente paro o meu carro na intenção de oferecer ajuda, repetindo uma ação muitas vezes realizada pelo meu pai. Desço, converso, o carro estava com algum defeito mecânico, o calor era insuportável, uma nuvem de mosquitos famintos nos cercava, olho para o interior do veículo, um chevete, vidros fechados, lá dentro duas mulheres e três crianças, uma de colo, trancadas por causa dos mosquitos, mas sufocando pelo calor!

- Como posso ajudar? Um deles me responde: - já está vindo alguém para rebocar o carro, mas vai demorar, se o Sr. pudesse levar as mulheres e as crianças de volta prá Ramada, nós moramos ali, seria de muita valia.

Eu usava um fusca, 1300, cinza, pneu lameiro, que Santa Vitória quando chove torna-se quase um banhado, e o banco traseiro era totalmente ocupado por uma caixa de metal, que até hoje me acompanha, com todo meu material de trabalho (material cirúrgico, medicamentos, seringas e agulhas descartáveis, material para necropsia, etc...).

Suspirei, - Sem problemas. Descarreguei a caixa, a deixei ao lado do chevete, sobre a areia da estrada. As mulheres e crianças, agradecidas, embarcaram no fusquinha, manobrei o carro e dei de volta, agora chato, pertinho do chão. Entre 20 e 30 km de retorno, deixei a turma em casa, voltei ao chevete, o auxílio ainda não havia chegado, mas chegaria em breve, carreguei minha caixa, despedi—me das pessoas e rumei para o meu destino.

Cheguei em casa noite alta, cansado, mas sentindo aquela sensação de dever cumprido. Meu pai teria feito a mesma coisa, era uma benção tê-lo como exemplo.

Sim, Juremir, eu teria voltado.

Paulo Ricardo Centeno Rodrigues









“ Ganhei eu ”, diz jornalista português sobre o Prêmio Camões de Chico Buarque





Pedro Tadeu, DN

Quando recebi no celular o alerta “Chico Buarque ganha o Prémio Camões” senti-me no direito de comemorar uma vitória: “ ganhei eu, caramba, ganhei eu ! “. Fui ler a notícia. Os seis membros do júri explicavam a razão desta atribuição do galardão literário pela “contribuição para a formação cultural de diferentes gerações em todos os países onde se fala a língua portuguesa“.

E o que é que este português, de 55 anos, que escreve estas linhas, aprendeu com Chico Buarque?

Aos cinco anos de idade o meu corpo saltitava sempre que no rádio grande do meu pai tocava “A Banda“, a música que, quando passava, diz o verso final do refrão, ia “cantando coisas de amor“. Chico Buarque impulsionou-me a dança.


Aos 10 anos de idade percebi como um indivíduo sozinho nada pode contra o cerco violento da indiferença. Bastou-me ouvir a história circular do operário de “Construção“, que “morreu na contramão atrapalhando o sábado“. Chico Buarque ensinou-me a identificar a injustiça social.


Aos 11 anos de idade percebi a inutilidade da divindade quando o coro masculino MPB4 repetia, em Partido Alto, “Diz que Deus dará/ Não vou duvidar, ô nega/E se Deus não dá?/Como é que vai ficar, ô nega?“. Chico Buarque deu-me razões para ser ateu.


Aos 12 anos de idade intui, com os versos de Fado Tropical, como a brutalidade da colonização sangrou a pele dos povos e como as cicatrizes prevalecentes demoram séculos a fechar: “E o rio Amazonas/Que corre Trás-os-montes/E numa pororoca/Desagua no Tejo/Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um Império Colonial“. Chico Buarque ofereceu-me uma identidade, um medo e uma esperança na Lusofonia.


Aos 13 anos de idade percebi, pela letra do pseudônimo Julinho da Adelaide (um autor inventado, usado para ludibriar a censura da ditadura brasileira, que até falsas entrevistas deu aos jornais…), que confiar na polícia pode ser perigoso, como constata Acorda Amor: “Tem gente já no vão de escada/Fazendo confusão, que aflição/São os homens/E eu aqui parado de pijama/Eu não gosto de passar vexame/Chame, chame, chame, chame o ladrão, chame o ladrão“. Com Chico Buarque descobri que, às vezes, está tudo certo se se ficar do lado errado.


Aos 14 anos de idade conspirei o sentido da canção O Que Será (À Flor da Pele): “Será, que será?/O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem censura nem nunca terá/O que não faz sentido…” Chico Buarque revelou-me o secreto significado da palavra “liberdade“.


Aos 15 anos de idade compreendi, ao ouvir Mulheres de Atenas, que a minha mãe, a minha irmã e a minha namorada viviam num mundo pior do que o meu: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas/Geram pro seus maridos os novos filhos de Atenas/Elas não têm gosto ou vontade/Nem defeito nem qualidade/Têm medo apenas“. Chico Buarque justificou-me o feminismo.


Aos 16 anos de idade espantei-me com o atrevimento de O Meu Amor. “Eu sou sua menina, viu?/E ele é o meu rapaz/Meu corpo é testemunha/Do bem que ele me faz“. Chico Buarque fez-me entender como o sexo pode, ou não, fazer um par com a palavra afeto.


Aos 17 anos comovi-me com Geni e o Zepelim, a prostituta que salva a cidade mas que a cidade despreza: “Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um/Maldita Geni!”. Chico Buarque confrontou-me com a dignidade dos indignos.


Aos 18 anos de idade a história de O Malandro exemplificou-me como é sempre o mexilhão que se lixa: um tipo que foge de um tasco sem pagar a cachaça que bebeu provoca uma crise mundial. Mas, no final das crises, há sempre um bode expiatório: “O garçom vê/Um malandro/Sai gritando/Pega ladrão/E o malandro/Autuado/É julgado e condenado culpado/Pela situação“. Chico Buarque antecipou-me a globalização e fez de mim um comunista.


Aqueles anos foram os tempos do meu caminho até à chegada à idade adulta, uma época anterior aos romances que Chico Buarque escreveu e que completam, com a verdadeira poesia de muitas das suas canções, um currículo mais do que suficiente para a atribuição do mais importante prêmio literário em Língua Portuguesa. 

Aqueles anos foram os tempos que moldaram o meu carácter. 

Aqueles foram os tempos que moldaram o carácter de tantos outros e de tantas outras que, como eu, cresceram a ouvir estas canções mas que entenderam nelas tantas coisas que eu não entendi, que compreenderam nelas tantas coisas que eu não percebi, que tiraram conclusões destes textos muito diferentes das que eu tirei. 

Mas, tenho a certeza, apesar de pensarem e sentirem de maneiras tão diferentes da minha, ontem, milhões de vós, ao saberem da notícia do Prémio Camões atribuído a Chico Buarque, tiveram o mesmo impulso que eu e comemoram: “ganhei eu, caramba, ganhei eu !”. 






WUTHERING HEIGHTS ( O MORRO DOS VENTOS UIVANTES )





" Se ele te amasse com todas as forças de sua alma por uma vida inteira, ainda assim ele não te amaria tanto quanto eu te amo num único dia." 
 - O Morro dos Ventos Uivantes -




Adriana Helena


Algumas pessoas precisam apenas de uma única inspiração na vida para se tornarem eternas. Um único clarão, um único momento de conflito esclarecedor, um único dia de amor, ou de ódio... Assim foi com Emily Brontë e a sua inspiração máxima: “O Morro dos Ventos Uivantes”. O clássico da literatura britânica, e porque não dizer universal, brindou o mundo com uma história de amor tão complexa e intrigante que até para um leitor experiente tentar defini-lo seria como caminhar na corda bamba a uma altura acima das nuvens: perigoso demais. Venha comigo conhecer essa história tão forte que arrebata leitores e os deixa tão apaixonados quanto eu. 

Sobre a Autora e a Obra

A maioria de vocês, amantes das letras, pode nunca ter tido um contato mais íntimo com a obra prima de uma das irmãs Brontë; a Emily Brontë – que por medo de não ser aceita entre os escritores britânicos do século XIX, na esmagadora maioria, homens numa sociedade machista, se escondia por detrás do pseudônimo masculino de Ellis Bell –, mas com certeza, se realmente gostam e praticam a arte da leitura, no mínimo já ouviram falar em “O Morro dos Ventos Uivantes”. Nascida em Howarth, lugarejo isolado de Yorkshire, Inglaterra, escreveu um magnífico romance, demonstrando maturidade intelectual impressionante para pessoa de menos de trinta anos de idade. 


Emily Brontë 


A obra foi lançada em 1847, em pleno século XIX, recebendo, logo de seu lançamento, incisivas críticas pelo teor “nebuloso” e “pesado” demais para ser um enredo de amor. Ora, mas é claro que só poderia sair uma obra densa e pesada, pois a escritora viveu momentos tenebrosos em sua vida real. Acompanhe-me abaixo: 

A vida real e sofrida da autora, foi a grande inspiração para a sua obra-prima 

A família Brontë mudou-se para Haworth, no condado de Yorkshire, onde o pai assumiu como pároco a igreja local. Emily e suas irmãs Anne e Charlote tornaram-se escritoras, sendo Charlotte a mais famosa delas, autora de “Jane Eyre” e “O Professor”. A região era um tanto isolada na época e a família tinha sérios problemas com Patrick, o irmão alcoólatra, que morreu precocemente vítima de uma vida de excessos e de tuberculose. Muito do ambiente sombrio e tenso retratado em “O Morro dos Ventos Uivantes” é fruto das constantes discussões de Patrick com seu pai. 

De personalidade reclusa e muito tímida, Emily seguiu a irmã até a Bélgica, voltando em seguida para Haworth, onde gostava de caminhar e ler. Morreu de tuberculose aos 30 anos, sem conhecer o sucesso de seu livro. Anne morreu também vítima de tuberculose em 1849 e Charlotte, vítima da mesma doença faleceu em 1855. Especula-se que a água consumida na residência estivesse contaminada pela proximidade com o cemitério, já que os irmãos morreram da mesma doença. Denota-se que a vida real da autora desta obra grandiosa foi a maior inspiração dela. Abaixo as ruínas da casa que inspiraram Emily, local isolado localizado em Haworth, West Yorkshire, na Inglaterra. Bastante sombrio, por sinal, não acham?



Haworth, West Yorkshire, Inglaterra (Ruínas da casa que inspirou o Morro dos Ventos Uivantes)


A concepção do amor de Heathcliff & Catherine (Os Protagonistas)


No século XIX, em especial no Reino Unido, a concepção de “amor” destoava quase que completamente daquilo que estava sendo retratado entre o misterioso Heathcliff (emissor do sentimento) e a mimada e insegura Catherine (receptora do sentimento). Talvez aquilo não fosse amor, talvez fosse, na verdade, algo completamente distinto do amor, mas que ainda não tivesse sido definido de maneira a povoar a mente das pessoas. Pode o amor superar todos os obstáculos, inclusive a morte? Duas pessoas podem dividir a mesma alma? Perguntas intrigantes que fazem de “O Morro dos Ventos Uivantes”, único romance de sua escritora Emily Brontë, um dos livros mais populares do mundo. 

Análise e Resenha da Obra

Essa é a minha ideia da Casa do Morro dos Ventos Uivantes (Sinistro) 


O personagem Sr. Earnshaw precisou deixar por uns dias sua propriedade em Wuthering Heights (“morros uivantes”) para fazer uma pequena viagem à cidade de Liverpool. Voltou de lá três dias depois trazendo consigo “um menino sujo, roto, de cabelos pretos” que, ao ser posto de pé, “limitou-se a olhar em torno, engrolando palavras de uma algaravia que ninguém conseguia entender”.


Os filhos do Sr. Earnshaw – Hindley e Catherine – receberam mal o menino, tão física e socialmente diferente deles. A mesma antipatia foi demonstrada pela Srª. Earnshaw e até pela criada Ellen (ou Nelly) Dean. 


O rapaz foi defendido pelo Sr. Earnshaw, cujo desejo de amparar o pequeno “cigano” acabou não conseguindo se sobrepor às convenções sociais britânicas, entranhadas também em Wuthering Heights. Isso apesar de a sociedade hierárquica conceber o patriarca Earnshaw como líder no universo privado da propriedade dos morros uivantes. 

Pois ocorre que o poder do chefe de família não era absoluto: estava submetido a fatos sociais – a regras explícitas ou implicitamente estabelecidas, oriundas de estratificações econômicas, étnicas e culturais vigentes. O rapaz que ele trouxera das ruas de Liverpool seria sempre um estranho naquele meio burguês, como se evidencia no fato de que recebera novo nome (desprezando a validade da sua história pregressa), mas permanecendo sem sobrenome, como um ser sem família na verdade, apesar de aparentemente “adotado” pelos Earnshaw. Diferente de todas as pessoas com quem viria a conviver, seu nome completo seria apenas: Heathcliff. 


Heathcliff


Aos poucos a pequena Srtª. Earnshaw foi se afeiçoando ao garoto agregado à família. E ele, também, começou a se alegrar com a companhia dessa menina a quem chamava pelo primeiro nome, Catherine, ou mesmo pelo apelido de Cathy, sem a menor cerimônia. Em suas brincadeiras, correndo pelo campo, sujos e arranhados, era como se tivessem criado um mundo só para si. Era um universo sem preconceitos étnicos, classes sociais, hierarquias ou conveniências de salão – um mundo de sonho, liberto das amarras da economia, da política ou de convenções familiares e comportamentais.

Catherine


Mas o monstro da realidade começou cedo a se esgueirar pelos caminhos ingenuamente trilhados pelas duas crianças. Hindley, irmão de Cathy, maltrata Heathcliff. A governanta Neally Dean, apesar de se contrapor aos maus tratos, também reclama da “vida selvagem” que Catherine vinha levando junto ao irmão adotivo. Com a morte do Sr. Earnshaw, Heathcliff é rebaixado, por Hindley, a simples empregado de estábulo. As barreiras de classe vão se tornando cada vez mais sólidas: de um lado, o universo rústico, iletrado, selvagem, pobre; de outro, o meio chique, bem comportado, aristocrático, elitista. A alternativa que se apresenta para Catherine é a escolha entre: o óbvio, já socialmente esperado, casamento dentro de sua classe; ou uma fantástica, talvez impossível, união a Heathcliff.

Esse dilema da diferença econômica entre apaixonados é usual dentro das tramas do Romantismo, escola literária a que o romance de Emily Brontë se filia. 


O romance O Morro dos Ventos Uivantes escapa dos cacoetes comuns do Romantismo. Pois nesse livro magnífico não se personifica o adversário do casal apaixonado: não há, por exemplo, um pai malvado a proibir a união de Catherine e Heathcliff. O adversário está dissolvido no ar como um fantasma: são convenções sociais difusas, dificuldades econômicas, preconceitos e segregações mal confessadas. Vê-se que não há proibição explícita ao casamento dos dois enamorados: é o mundo prático que se coloca como barreira entre eles. De que viveriam? Onde arranjariam trabalho? Como e em que meio criariam seus filhos, sem dispor de empregados ou de todo o aparato doméstico a que Cathy se acostumara desde a primeira infância? Como suportar os preconceitos de que seriam vítimas no dia a dia? O olhar pela janela tornava-se cada vez mais esmaecido e nebuloso ao casal apaixonado... 


A janela em o fantasma de Cathy implorava seu ingresso à Heathcliff, na casa do Morro dos Ventos Uivantes 


Catherine acaba se casando com Edgar Linton, um homem convencional, bem educado e rico. Mas não se pense que ela seja mostrada de maneira simplória como uma interesseira. Cathy sofreu muito, dilacerada entre o amor selvagem e sem futuro pelo antigo amigo Heathcliff e a afeição que sentia por seu promissor pretendente Edgar. Este, por sua vez, não é o vilão que costuma aparecer em romances românticos usuais colocando-se entre o casal protagonista.





Após longa ausência ruminando seus ressentimentos, o ultrarromântico Heathcliff retorna para se vingar. Os alvos são: Hindley Earnshaw (o “irmão de criação” que o espezinhou na infância e o humilhou na idade adulta) e Edgar Linton, que conquistara o amor de Catherine. Esta, no entanto, também não deixa de se tornar odiosa aos olhos do contraditório Heathcliff, que – ao mesmo tempo – a ama com loucura, a ponto de profanar o seu túmulo e com ela lá se aninhar após a morte de Caty...

Eterno rancoroso, Heathcliff põe em curso uma revanche sem fim. Casa-se sem amor com Isabela (irmã de Hindley) apenas para infligir sofrimento à família Linton, na qual sua amada Cathy ingressara pelo casamento. A mesma tortura se estende depois a Hareton (filho de Hindley), de quem se torna um tutor perverso e embrutecedor após diversos estratagemas. Maltrata também o próprio filho, por seu parentesco com os Linton. Pela mesma razão, hostiliza a pequena Cathy, filha de sua adorada Catherine Earnshaw.


Heathcliff é, então, o vilão da trama? Em determinados momentos ele se parece mais com um herói romântico, noutros é quase um demônio. Os personagens são multifacetados, tal qual na vida real, apesar do exagero na dramaticidade dos conflitos que se dão entre eles.

Emily Brontë nos guia pelos mais profundos vales da psicologia humana, levando em conta com mestria os aspectos sociais que nos conduzem a eles. E no final, o casal descansa em seus túmulos, unidos na vida e na morte... 




Conclusão

O livro é muito denso, com passagens tocantes e diálogos profundos, tendo causado certo escândalo na época de sua publicação. Mas certamente narra uma história tão forte, com personagens tão complexos e apaixonantes que muitas pessoas o tem como livro preferido e o guardam pela vida como eu. Ao terminar a leitura, tem-se a impressão que você estava naquele lugar e foi testemunha de todas as histórias contadas por Elen "Nelly"Dean, ao pé da lareira. Claro que o drama é geral, a dor é intensa e parece que tudo é só sofrimento, mas só posso dizer que vale a pena no final. Recomendo a todos um passeio à cavalo pelas charnecas e uma visitinha ao sítio do Morro dos Ventos Uivantes. Tenho certeza que vai gostar! 




O vídeo com a canção de Kate Bush que editei, narrando essa história magnífica


Kate Bush 


♪♫ Wuthering Heights é uma canção escrita por Kate Bush e lançada em 1978. Ela é considerada a 32ª melhor canção de todos os tempos por sua beleza lírica. Kate Bush escreveu a letra da música quando tinha apenas 18 anos, baseando-se no icônico livro de Emily Brontë. 

Bush leu o livro Ö Morro dos Ventos Uivantes" e descobriu que havia nascido no mesmo dia que Brontë, a escritora. A música, a última escrita e última a ser gravada para seu álbum de estreia, foi criada no piano em algumas horas numa madrugada. Um verdadeiro clássico!! 


♪♫A letra é feita do ponto de vista de Catherine, que implora na janela de Heathcliff que ele a deixe entrar. Esta cena romântica tem um lado sinistro considerando-se os eventos do livro, já que Catherine pode ser um fantasma chamando o amado para juntar-se a ela na morte.


Amigos, para editar o vídeo, em razão da força da história, usei de quatro particularidades nas imagens. Iniciei com as paisagens da casa do Morro e depois intercalei com cenas dos filmes do Morro dos Ventos Uivantes de 1992, com os atores Ralph Fiennes & Juliette Binoche, tendo um estilo mais gótico, inserindo também trechos de cenas da série -O Morro dos Ventos Uivantes de 2009 - este com Tom Hardy (Heathcliff) e Charlotte Riley (Catherine), cujo trabalho foi dividido em dois capítulos e que traz o Heathcliff mais atraente e perigoso de todos. Termino o vídeo com imagens reais do local da casa do Morro em West Yorkshire, Inglaterra, que inspiraram Emily a criar uma dos maiores obras de todos os tempos. Tomara que aprecie! Recomendo imensamente!!







Biografia inspiradora:


https://homoliteratus.com/fantasma-o-morro-dos-ventos-uivantes/
https://cinemaclassico.com/listas/o-morro-dos-ventos-uivantes-telas/
Imagens do Google imagens e Tumblr, Gif criado por Adriana Helena
Vídeo do Canal de Adriana Helena no YouTube




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