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Será que o Homo Ridiculus-Trend veio para ficar? Dizem que sim !



Abstract : Precisamos falar sobre trends. Precisamos falar sobre redes sociais. Precisamos falar sobre limites. Precisamos falar sobre o que é ridículo.

Lenio Luiz Streck


A ‘ontologia da frivolidade’ da falta de vergonha: fracasso civilizatório?

A indagação fundamental que assombra a contemporaneidade não reside mais nos grandes dilemas da filosofia, mas sim em uma constatação muito mais simples, porém tenebrosa: o projeto da humanidade deu errado? O que houve com o “sapiens”? Olhando as redes sociais, especialmente o Instagram e TikTok, a resposta é afirmativa.

O projeto civilizatório, antes ancorado na razão crítica, na emancipação do sujeito e na densidade do debate público (lembremos que Habermas nos deixou há alguns dias e, por certo, deve ter partido decepcionado com o desaparecimento da esfera pública, hoje colonizada por uma razão algorítmico-instrumental), parece ter colapsado sob o peso de um narcisismo algorítmico. Eis a palavra: narcisismo da algocracia. O ápice dessa “ontologia da frivolidade” manifesta-se no que a atualidade convencionou chamar de “nova moda” (ou “trend”): a proliferação viral de vídeos em que indivíduos dublam e performam a vazia indagação “será que eu sou…?”. Tem advogado, defensor público, delegado, médico e até propaganda institucional. Será que eles são? São o quê, afinal?

Uma observação: o “será que…” é apenas a ponta do iceberg. A pontinha. Há outras coisas parecidas que só as redes sociais podem “produzir”. Esta coluna é, assim, abrangente.

A angústia foi tragada por esse novo psicotrópico algorítmico, transformando-se em uma paródia trágica. Uma espécie de “bocozização”. Tudo é espetáculo, tudo por um click. Tudo por engajamento, mesmo que o preço seja o patético. Tudo é espetáculo. A dúvida deixou de ser o motor da investigação da verdade para converter-se em um espetáculo raso, criado sob medida para capturar a atenção imediata e acumular engajamento.

O ser humano, ao abdicar de sua capacidade de elaboração conceitual, transmuta-se naquilo que doravante podemos diagnosticar como o Homo Ridiculus. Do homo sapiens ao ridículo. Este “novo sujeito histórico” não apenas carece de substância intelectual, mas exibe a sua futilidade de forma ufanista. Tem orgulho do ridículo. A voragem digital espetacular é implacável.

Colapso da vergonha alheia e a perda do senso do ridículo

Para compreender a viabilidade da ascensão do Homo Ridiculus, é imperativo analisar a falência dos mecanismos de controle social, em especial a extinção da “vergonha alheia”. Historicamente, o constrangimento vicário operou como uma fronteira simbólica indispensável. A “dor psicológica” experimentada ao presenciar o ridículo de outrem servia como uma baliza moral, reafirmando os limites do decoro e da civilidade no espaço público. Quando a sociedade repudiava o comportamento inadequado, ela calibrava o seu próprio senso de proporção. Esse é o busílis.

Atualmente vivemos o declínio da vergonha. As plataformas digitais inverteram a lógica da sanção: o comportamento que antes geraria ostracismo e rubor passou a ser exponencialmente recompensado. Fazer fiasco gera likes. Perdemos o senso do ridículo de forma sistêmica. A imunização contra o pudor foi inoculada por meio de um condicionamento de reforços positivos.

O Homo Ridiculus prospera exatamente neste vácuo. Como se cria? O que come? Como se reproduz? Eis as perguntas fundamentais. Ao se expor em situações de frivolidade extrema sem qualquer traço de autoconsciência crítica, e ao receber aplausos de uma massa de “seguidores” igualmente alienados, o “novo sujeito” decreta o fim do próprio constrangimento. Perdeu-se a capacidade de indignação. E da capacidade de sentir vergonha. E isso é gravíssimo.

Estupidez como ciência aperfeiçoável : aplicação das 5 Leis de Cippola

Neste panorama desolador, é necessário refutar a ideia de que o momento atual seja fruto do mero acaso. Há nisso uma agnotologia (a construção deliberada da ignorância). A estupidez, na era algorítmica, deixou de ser uma condição inata ou uma deficiência cognitiva passiva; a estupidez é, hoje, uma “ciência empírica”. Ela é meticulosamente aperfeiçoável, possuindo métodos de validação, dinâmicas de replicação imediata e até métricas de desempenho (clics) otimizadas por inteligência artificial e análise de dados comportamentais.

Este fenômeno pode ser decodificado à luz de um arcabouço conceitual sólido, notadamente o postulado sobre as “5 Leis da Estupidez” (de Carlos Cippola e aperfeiçoadas por Mauro Mendes Dias), tese amplamente difundida no debate jurídico e crítico por meio de publicações das mais variadas, como já escrevi aqui na ConJur. A transposição desta verdadeira epistemologia dos néscios para o ecossistema das redes sociais expõe a mecânica exata do declínio social:

Lei número 1: sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de indivíduos estúpidos que circulam pelo mundo jurídico.

Com efeito, ao ver profissionais fazendo publicidade com TikTok do tipo “será que…”, está demonstrada a primeira lei. Quod erat demonstrandum constante.

Lei número 2: a probabilidade de que uma determinada pessoa enfiada até o pescoço nas redes sociais seja estúpida é independente de qualquer outra característica da mesma pessoa.

De fato, essa segunda lei também é verificável, já que nas diversas camadas profissionais (a área jurídica é o locus privilegiado!), a distribuição do Índice de Estupidez (IE) é quase igual. Basta uma olhada rápida no mundo das lives. Todo mundo virou “artista”, com o que todos os gatos se tornaram pardos. As neocavernas desafiam o desgosto de Platão.

Lei número 3: uma pessoa estúpida, mormente se tiver formação jurídica (porque são muitos) é aquela que causa dano a outra pessoa ou grupo sem, ao mesmo tempo, obter um benefício para si mesmo ou mesmo causar prejuízo.

Perfeita a terceira lei. Cipolla não considerou a estupidez como uma questão de quociente intelectual, mas sim uma falta de inteligência relacional. Ele parte da ideia de que, ao nos relacionarmos uns com os outros, podemos obter benefícios e proporcionar benefícios aos outros ou, pelo contrário, podemos causar danos ou prejudicar os outros. Mas nas redes sociais não é assim. Se você posta algo sofisticado, o estúpido (mormente o formado em direito) vem e faz como o pombo no jogo de xadrez: esculhamba as pedras e faz cocô no tablado. E sai dizendo que venceu. De peito estufado. Orgulhoso de sua vencedora estupidez.

Segundo Cipolla, há ainda o supernéscio: aquele que esculhamba os não-néscios e ainda se prejudica, sendo processado pelo que postou. Ou seja, só prejuízo.

Lei número 4: as pessoas não-estúpidas sempre subestimam o potencial prejudicial de estúpidos.

Essa quarta lei de Cipolla é autoexplicativa. Por vezes, eles atacam à socapa e à sorrelfa. E nem conseguimos reagir. Estupefatos com a estupidez dos estúpidos. Nosso erro: achar que tudo isso é “só brincadeirinha”. “São inofensivos”, diz-se. Pois é. Será que são? (desculpem o “será que”).

Lei número 5: o estúpido (ou néscio) é o mais perigoso.

Também a quinta lei é autoaplicável. Como diz Cipolla, “Todos os seres humanos estão incluídos em quatro categorias fundamentais (eu acrescentei uma quinta!): o desavisado, o inteligente, o malvado (ou ladrão) e o estúpido. De onde:
A pessoa inteligente sabe que é inteligente;
o malvado está ciente de que ele é mau;
o desavisado é dolorosamente imbuído do senso de sua própria sinceridade e,
ao contrário de todos esses personagens, o estúpido não sabe que é estúpido. Ele não sabe que não sabe;
E por isso temos o dever civilizatório de avisar o estupido de que ele(a) é estúpido (a).
Como acentua Cipolla, isso de não saber que não sabe (essa parte é minha) contribui para dar maior força, incidência e eficácia à sua ação devastadora. Aqueles que sabem que não sabem estão perdidos, entre todos aqueles que acham que sabem que sabem, aqueles que sabem que não sabem, mas fazem mesmo assim (razão cínica), e aqueles que não sabem que não sabem e não querem saber que não sabem tudo aquilo que não sabem e nem querem saber.

Há, assim, um contraste absoluto entre a racionalidade esperada e a operação da estupidez aperfeiçoável, evidenciando o abismo ontológico (e gnosiológico). Diante da construção de sentido civilizatório, o homo ridiculus contrapõe a maximização do engajamento por meio de humor rasteiro e imitação; diante do necessário pudor e proteção da intimidade, o homo ridiculus contrapõe a exposição de si mesmo de forma escancarada; diante da possibilidade de prejuízo reputacional, o homo ridiculus aceita o desgaste em troca da exposição espetacularizada; diante de uma necessária e indispensável persuasão, expõe-se para viralizar, exigindo imediatidade.

A sociedade espetacularizada (isso não é novo!)

A disfunção comportamental atinge seu ápice de gravidade quando o Homo Ridiculus invade a esfera institucional. As instituições republicanas e a liturgia que as cerca não são adereços meramente burocráticos; elas representam a reserva de credibilidade necessária para a manutenção do Estado Democrático.

O caso que envolve presidente(a) de subseções da Ordem dos Advogados do Brasil serve como arquétipo desta falência. Uma representante da entidade foi alvo de pesadas críticas ao protagonizar, ao lado de outra presidente seccional, por um vídeo que abraçava sem ressalvas o “trend” “Será que eu sou?“. Na encenação, o mínimo de liturgia foi reduzido a frases de efeito dubladas como “Dizem que sou presidente da OAB…” Será?“, acompanhadas de danças formatadas para o Instagram. Isso se repetiu com defensor público e advogados. E se espalha como um rastilho de pólvora. Afinal, é trend!

A tentativa de atenuar o vexame sob a justificativa de que a “trend” representava “bom humor” para o início do fim de semana não apenas ignora a liturgia necessária à função, como comprova a letalidade da segunda lei da estupidez: o cargo de proeminência não evita a sucumbência ao ridículo. A defesa das prerrogativas da advocacia, pauta construída historicamente, fica fragilizada em seu peso político ao ser engolida pelo “mundo encantado” da rede social. Entra aqui a terceira lei da estupidez.

A necessária crítica e aquilo que aqui passo a denominar de ‘hermenêutica da resistência’

Diante do esfacelamento do senso do ridículo e do avanço irrefreável dessa ciência da estupidez, a submissão silenciosa torna-se um ato de cumplicidade. É nesse sentido que a manifestação pública de resistência ganha força imprescindível. A postura de vozes críticas, a exemplo da publicação de Andreia e Helio Tonelli Jr é de suma importância. Ambos, de forma direta e sem eufemismos, jogaram pesado, no Instagram, com a “nova moda”. Eles não exercem um conservadorismo puritano, mas uma verdadeira hermenêutica da sobrevivência. Ao apontarem a insustentabilidade e o caráter patético do fenômeno, resgatam o único antídoto possível contra o veneno do conformismo e da banalização: a denúncia firme da burrice espetacularizada, além de buscar as causas científicas do fenômeno.

A oposição expressa por tais críticas delineia a linha divisória entre a aceitação do fracasso civilizatório e a luta pela dignidade do intelecto. A verdade inconveniente é que não há humanidade alguma em comportar-se como um fantoche de métricas; trata-se do esvaziamento total do sujeito em favor de um sistema operado por hiperconexão vazia.

Retomo as provocações iniciais: a humanidade fracassou? O fracasso é o diagnóstico preciso de um tempo que celebra a anulação da cognição, aos poucos cada vez mais terceirizada.

Perdemos o senso do ridículo de forma quase irreversível, e a ausência da vergonha alheia deixou a praça pública desprotegida contra o avanço das indignidades. A polis foi carcomida. E, sim, a estupidez foi elevada ao “status de ciência” (sarcasmo!), porque pode sempre ser aperfeiçoada.

Resta saber se essa resistência será capaz de desarticular as armadilhas do Homo Ridiculus ou se seremos todos condenados a figurar como coadjuvantes trágicos na grande coreografia do abismo.

No que isso tudo vai dar?



 Lenio Luiz Streck é professor, parecerista, advogado e sócio fundador do Streck & Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br








O cara da TV Record, o fracasso do Direito e o mundo do espetáculo


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Lenio Streck

1. O fracasso da civilização

Li e vi o “espetáculo” que o jovem rapaz apresentador da TV Record (ver aqui) fez ao vivo. Quem tiver estômago, veja. A notícia é autoexplicativa. Em nome do “ibope” e da espetacularização, informou ao vivo, com fones no ouvido e tudo, que a filha da senhora havia sido assassinada. Sim, ele fez isso.

Acabou. Vamos devolver a chave. A luz se apaga. E o que dizer do lamentável episódio envolvendo a premiada jornalista Patrícia Campos Mello, execrada, injuriada e difamada — primeiro, por um anônimo, e depois, pelo presidente da República — à luz dos holofotes e sob os aplausos de claques que compõem esse simulacro todo? Disse-se o que se disse — foi absolutamente cruel a insinuação sexual — e, no parlamento, alguns deputados apoiaram a difamação. Fracassamos ou não? Até Sardenberg, da GloboNews e CBN, sempre defensor do establishment, diz que houve quebra de decoro. Até tu, Sardenberg?

2. O consumidor de ilusões e as ilusões do consumidor: o fracasso como meta

É claro que isso tudo tem explicação. Vejamos. Já em 1967, o francês Guy Debord escreveu La Societé du Spectacule (A sociedade do espetáculo), antecipando as mazelas da fragmentação da cultura ocorrida nestas últimas duas décadas. Como bem lembra Vargas Llosa — que, de certo modo, “revisita” a temática 45 anos depois, em seu La Civilización del Espetáculo —, Debord qualifica de espetáculo o que Marx chamou de alienação decorrente do fetichismo da mercadoria.

É quando o indivíduo se “coisifica”, entregando-se sistematicamente ao consumo de objetos, muitas vezes inúteis e supérfluos. Na proposição 212 de seu livro, Debord chama de espetáculo a ditadura efetiva da ilusão na sociedade moderna.

Debord dizia que, na sociedade do espetáculo, a vida deixa de ser vivida para ser representada, vivendo-se “por procuração”, como os atores da vida fingida que encarnam uma peça: “O consumidor real se torna um consumidor de ilusões”.

Llosa produz um livro em que denuncia a vulgarização da cultura, repetindo algo que T. S. Eliot já dizia, ou seja, que a cultura está a ponto de desaparecer; na verdade, talvez já tenha desaparecido. Eu acrescento: os néscios venceram.

Llosa chama de “civilização do espetáculo” ou de um mundo em que o primeiro lugar na tábua de valores vigente é ocupado pelo entretenimento e em que se divertir, fugir do aborrecimento, é a paixão universal. Eis o “cara” da Record. Eis… vejamos a seguir.

3. O novo lumpesinato cultural – perdeu, Direito

Llosa critica fortemente aquilo que chama de “literatura light”, que propaga o conformismo, a complacência e a autossatisfação. Na mosca.

Diz também — isso em uma entrevista — que a internet democratizou a informação, mas não a cultura. Mas essa informação, se não há uma cultura que discrimine, pode também naturalizar completamente a informação, porque o excesso de informação pode ser um excesso de confusão. Por isso, a cultura é muito importante, pois permite distinguir o que é relevante do que não é relevante. E isso parece estar perdido. Vejam-se as falas de integrantes do governo, como Paulo Guedes sobre o dólar e as empregadas domésticas, alegoria pequeno-gnosiológica com ares de “manual para néscios”.

Aí está. As denúncias de Debord e Llosa cabem como uma luva ao que se pratica no Brasil em termos de jornalismo, ensino e práticas jurídicas.

Trata-se da fabricação cotidiana de “lumpens pós-modernos”. Esse “indivíduo” fruto desse processo não reivindica. Não luta. Apenas reproduz. O que ele faz é alienar-a-sua-ação-ao-outro. Trata-se do novo homem, o que substitui o homo sapiens: É o homo simplifier ou o homo facilitator.

Juristas, estagiários, publicitários, jornalistas e jornaleiros… Ninguém está livre desse novo homem. Tenho denunciado essa gente há muitos anos. Ainda há dias vi, nas redes (sempre “as redes”) um “comercial” de um advogado, acho que de Minas, em que ele “se exibe”, como se fora personagem de um filme policial. Vai até a favela e diz: nós levamos o caso daqui até Brasília. Que coisa, não?

Outros “ensinam” Direito por memes e macetes. Cantam. Dançam. Desafinam. Comparam emendas constitucionais a silicone. Pensam que, para escrever livros, basta pagar e juntar letrinhas. Pois é. Livros? Constituição? Boa dogmática? Filosofia no Direito, então? Nada disso.

Como já falei, meu problema não é com o jogador. É com o jogo. Simplifique a coisa a tal ponto que a coisa já não é mais a coisa. É reduzida a um simulacro. É nisso que fracassa o Direito.

Tudo o que está acontecendo veio de algum lugar. Não há grau zero. Jabuti não nasce em árvore. Plantou-se transgênicos. Abriram a fábrica de próteses. Para fantasmas. Por isso se prende gente por R$ 5. Por isso se algema maneta. Por isso “não se conhece” de milhares de recursos e falamos tanto de precedentes. E ousar fazer embargos dá multa. Está preocupado com a enchente? Pois de há muito começou a chover na serra.

Sim, fracassamos. O rapaz da Record apenas é um símbolo que apagou a luz. Um simulacro. Ou seria uma simulação de tudo o que está aí?

4. Nada está tão ruim que não possa piorar (?)

Outro dia li dicas sobre filosofia do Direito. Uma dica foi esta: “o positivismo jurídico tem como ápice a doutrina de Hans Kelsen que visa demonstrar uma fórmula de aplicação do Direito que pura e simplesmente declare a vontade do legislador sem criar nada novo, reduzindo o seu conteúdo às leis escritas” (sic). Esse deve ser o Kelsen quem escreveu, em lugar da Teoria Pura do Direito, a Teoria do Direito Puro, se me entendem a ironia. Na medicina seria algo como “tanto faz o tipo de sangue para fazer transfusão; basta que seja sangue”. Ou “tanto faz usar antibiótico ou chazinho de ervas — dá tudo no mesmo”.

Pronto. Como é mesmo o nome do rapaz da Record? E daquele que ensina o ECA cantando? E o que canta ensinando o que é estupro (já ouviram a letra)?

E os alunos? Bem, são os que se transformam depois em advogados, defensores, procuradores, juízes. E professores. Bom, eis aí o resultado. E está estabelecido o círculo vicioso (que não é um ciclo. É círculo, mesmo. Antes fosse só um ciclo. Talvez tivesse perspectiva de chegar ao final).

O homo sapiens perdeu, playboy. Já temos o novo homo. O facilitador. O homo zapiador (homozapiens). O homo boquirotus. O homo nescius. O homo ridiculum, enfim, ille qui superbus est stultitiam suam — o homem que se orgulha de sua própria estultice.

Como diz João Pereira Coutinho, fazendo uma crítica ao filme Jojo Rabbit, é bobagem pensar que os alemães teriam resistido a Hitler se tivessem conhecido melhor o outro, o inimigo judeu. Isso é simpático, diz Coutinho, mas falso. Como ensina o filme Uma Vida Oculta, de Terrence Malick, essa resistência teria sido mais eficaz se os alemães conhecessem melhor…a eles próprios. Eis aí um bom recado para a comunidade jurídica. E para o país.

Tenho visto tantas coisas nestes últimos tempos que dou completa razão a Malick. Ou à leitura feita de Malick.

Os maiores inimigos dos juristas são eles mesmos. O Direito ajudou a destruir o país e, quem foi o responsável? A comunidade jurídica jura, de pé junto, que não tem nada a ver com isso.

Os alemães também não tiveram nada a ver com o nazismo… Pois é.