É a morte é o que dá significado à vida




Rodolfo Fonseca

Existe uma verdade que evitamos encarar, mas que sustenta silenciosamente tudo o que realmente importa: a vida só tem valor porque termina.

Se o tempo fosse infinito, nada seria urgente. Nada seria precioso. Nada exigiria escolha.

A eternidade, ao contrário do que imaginamos, não daria sentido à vida, mas a esvaziaria.

Vivemos como se tivéssemos tempo de sobra, como se o amanhã fosse garantido e que pudéssemos adiar indefinidamente aquilo que sabemos que importa.

Mas há um ponto invisível no futuro que ninguém consegue atravessar. Não importa o quanto se planeje, se controle ou se antecipe. Existe um limite onde tudo se encerra. E é justamente esse limite que dá peso a cada decisão.

Quando entende que seu tempo é finito, escolher significa renunciar, arriscar e priorizar.

Curiosamente, não é o medo da morte que mais nos limita, mas sim o medo de falhar antes dela chegar. Esse é o medo que nos mantém pequenos! Muitas pessoas constroem suas vidas guiadas por esse medo e com isso, evitam viver plenamente.

O medo do fracasso pode até produzir competência, disciplina e resultados... Mas raramente produz grandeza. Porque grandeza exige risco e risco exige aceitar a possibilidade de perder.

Essa ilusão de que a vida é sobre nós...

Mas tem um entendimento, uma mudança de perspectiva que transforma tudo: a de que vida não é sobre você.

Enquanto tudo gira em torno da autopreservação, da imagem e do controle, a existência se torna estreita, pequena e defensiva. E quando essa lógica se rompe, surge uma nova possibilidade de viver por algo maior e contribuir em vez de apenas acumular, agir mesmo sem garantias.

Paradoxalmente, é quando deixamos de achar que somos "o centro" é que a vida ganha profundidade.

Em algum momento, todos nos deparamos com uma escolha silenciosa: voltar para o que é seguro e conhecido ou avançar para algo maior e sem garantias?

O caminho seguro preserva o que já foi construído. O caminho do propósito exige abrir mão. E aqui está uma verdade difícil de aceitar: nem sempre é possível ter ambos.

Algumas vezes, para recuperar o controle é preciso abrir mão do significado... E para reencontrar esse significado a vida vai exigir que você abra mão do controle!

Ninguém está pronto!

Esperamos o momento ideal. A segurança completa. A certeza absoluta... Mas ela nunca vem!

A vida não funciona sob condições perfeitas. As decisões mais importantes são tomadas no meio da dúvida e medo. Ninguém nunca está realmente pronto. E isso talvez nunca aconteça durante uma vida!

Mas o tempo não espera pela nossa preparação. A morte é como uma "lente de clareza" e pensar nela não é mórbido, mas um dos exercícios mais lúcidos que existe.

Quando você realmente entende que seu tempo é limitado, pequenas distrações perdem força, conflitos desnecessários perdem sentido e o que é essencial se torna evidente.

A morte não diminui a vida. Ela revela o valor do instante.

Há algo de profundo em observar um momento simples sabendo que ele não se repetirá... Um gesto. Uma conversa. Observar em silêncio...

Quando você sabe que tudo passa, cada instante deixa de ser banal. A pressa diminui e a presença aumenta. E aquilo que antes parecia comum se torna extraordinário.

Se a morte dá significado à vida, então a pergunta inevitável não é "quanto tempo temos", mas o que estamos fazendo com ele?

Estamos vivendo de forma automática ou consciente?

Estamos escolhendo ou apenas reagindo?

Estamos nos protegendo ou realmente nos expressando?

Não é a quantidade de tempo que define uma vida, mas como ela foi vivida.

Eu pensando que depois de tanto tempo já teria entendido isso melhor... Olhe para mim... Eu não estou pronto. Ninguém está.

Mas não escolhemos o momento. É a morte é o que dá significado à vida.



A série coreana de 2017, No Mundo Novamente, na Netflix, trata de vida e morte, escolhas, amor e amizade. Serve bem para ilustrar o texto acima. Recomendo.
  

O Irã empurrado para a bomba atômica



Há duas décadas, o Irã sofre fortes pressões internacionais com o objetivo de limitar seu programa nuclear, que — segundo vários analistas — poderia levar ao desenvolvimento de armas atômicas e inseri-lo no restrito grupo de países que possuem a bomba nuclear (Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, China, Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte).

Vale, em primeiro lugar, lembrar que, no direito internacional, todo país é soberano. Isso significa que nenhum organismo internacional pode “impor” regras sem uma base jurídica e que os limites existem apenas se o Estado os aceita, ao aderir a tratados específicos, ou se está vinculado a decisões obrigatórias da ONU. Em princípio, o direito dos países que já detêm a bomba atômica estende-se também aos que não a possuem, incluindo o Irã.

Em 2006, acusado pelos Estados Unidos de querer desenvolver armas atômicas, o Irã sustentou o caráter exclusivamente civil de seu programa nuclear. Na ausência de um acordo, o país foi submetido a pesadas sanções econômicas internacionais.

Somente em 2015, durante a presidência de Obama, ocorreu uma distensão, culminando na assinatura do acordo Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) entre o Irã e as grandes potências. Em troca da suspensão das sanções, Teerã aceitou impor limites ao enriquecimento de urânio e submeter essas atividades a controles internacionais.

Com a presidência de Trump, em 2018, os Estados Unidos abandonaram unilateralmente o JCPOA, sem que o Irã o tivesse violado. Para Washington, o acordo era fraco, pois limitava o enriquecimento de urânio por cerca de 15 anos. Além disso, os Estados Unidos pretendiam incluir no acordo limites também ao armamento não nuclear e às políticas regionais de Teerã, com a clara intenção de redesenhar o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Com a ruptura do acordo, foram reintroduzidas duras sanções contra o Irã, que — por sua vez — retomou atividades nucleares sensíveis, incluindo o enriquecimento de urânio, além de reforçar suas capacidades militares.

Durante a administração Biden (2021–2024), houve uma tentativa de retornar ao acordo nuclear, mas sem sucesso.

Em 2025, Trump voltou à presidência dos Estados Unidos. Em junho daquele ano, Israel — que avalia o programa nuclear iraniano como ameaça existencial — lançou ataques aéreos contra instalações nucleares, bases militares e lideranças do sistema militar iraniano, com o objetivo de atrasar seu desenvolvimento nuclear e enfraquecê-lo militarmente. Após alguns dias, os Estados Unidos também entraram diretamente no conflito, bombardeando centros nucleares iranianos. Ao final do ataque ao Irã, que durou ao todo 12 dias, os EUA declararam o fim do perigo nuclear iraniano.

No fim de fevereiro deste ano, aproveitando uma crise política interna no Irã, Estados Unidos e Israel voltaram a atacar o país, com o objetivo de eliminar suas lideranças, derrubar o regime islâmico, destruir o programa nuclear e reduzir o poder militar iraniano.

Após mais de um mês de guerra, é evidente a superioridade militar dos agressores, mas também que seus objetivos não foram alcançados. Pelo contrário:

- o regime iraniano fortaleceu-se internamente, com a ala mais dura do sistema no poder.

- o conflito desestabilizou toda a região. A resposta do Irã mostrou-se eficaz: Teerã contra-atacou com mísseis e drones, atingindo tanto Israel quanto bases norte-americanas no Oriente Médio, envolvendo aliados regionais dos EUA e ampliando a guerra para toda a área.

- o conflito está penalizando o mundo inteiro. O Irã bloqueou o fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 25% da demanda mundial. Assim, sobretudo os países europeus e asiáticos foram transformados de espectadores em vítimas econômicas do conflito.

Além disso, a guerra desencadeada por Israel e pelos Estados Unidos legitima a interpretação de que as potências ocidentais não respeitam a soberania dos países que não se alinham às suas políticas, chegando a violar o direito internacional, se necessário. Consequentemente, para os Estados ameaçados pelas grandes potências — o Irã em primeiro lugar — a dissuasão nuclear aparece como a alternativa mais segura (se não a única) para garantir sua independência.

Em síntese, a abordagem dos Estados Unidos em relação à questão iraniana revela-se fracassada: abandonaram acordos anteriores e adotaram políticas de força. A combinação dessas medidas mina sua credibilidade e torna extremamente difícil a conclusão de novos acordos. Na prática, impulsiona o Irã para a opção nuclear da qual, em tese, o queriam afastar.

Além disso, os efeitos dessa abordagem ultrapassam o âmbito regional, aumentando a insegurança e a instabilidade em todo o mundo. O fim da atual guerra contra o Irã não restabelecerá a situação anterior: políticas como as dos Estados Unidos e de Israel já abriram uma verdadeira “caixa de Pandora”.


Luciano Fazio, matemático pela Università degli Studi de Milão, especialista em previdência pela Fundação Getulio Vargas e consultor externo do DIEESE para assuntos previdenciários. É também autor de O que é previdência do servidor público (Loyola, 2020).









Ele ressucitou . . .

 


Agosto 5, 2011


 Mahler : Sinfonia No.2 'Ressurreição' 

 Simón Bolívar Symphony Orchestra of Venezuela 

Gustavo Dudamel, maestro

Miah Persson, soprano 

Anna Larsson, mezzo-soprano

 National Youth Choir of Great Britain

Royal Albert Hall




Páscoa é renovar a Esperança de Amor e Paz

 






Amizade



Passava do meio dia, o cheiro de pão quente invadia aquela rua, um sol escaldante convidava a todos para um refresco...

Ricardinho não agüentou o cheiro bom do pão e falou:

- Pai, tô com fome!

O pai, Agenor, sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência...

- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!

Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente...

Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:

- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois sai cedo para buscar um emprego e nada encontrei, eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino, em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!

Amaro, o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...

Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois sentem-se junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...

Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua...

Para Agenor, uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá...

Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...

A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e a lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...

Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:

- Ô Maria! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!

Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer...

Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho...

Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas...

Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório...

Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos "biscates aqui e acolá", mas que há 2 meses não recebia nada...

Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias...

Agenor com lágrimas nos olhos agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho...

Ao chegar em casa com toda aquela "fartura", Agenor é um novo homem - sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso...

Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores...

No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho...

Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando...

Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa...

E, ele não se enganou - durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres...

Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar...

Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trêmula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta...

Doze anos se passam desde aquele primeiro dia de aula...

Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro...

Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o "antigo funcionário" tão elegante em seu primeiro eterno...

Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma Instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço...

Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho, o agora nutricionista Ricardo Baptista...

Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um...

Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que a mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido.

Ricardinho, o filho mandou gravar na frente da "Casa do Caminho", que seu pai fundou com tanto carinho:

"Um dia eu tive fome e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus e isso não tem preço.

Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma. E que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!"

(História verídica)



Outono tem muito a ver com nossa alma . . .

 





Visão geral criada por IA

A frase "Repara que o outono é mais estação da alma do que da natureza" é uma famosa reflexão de Carlos Drummond de Andrade, presente na obra Fala, Amendoeira (1957). Ela sugere que o outono evoca recolhimento, amadurecimento interior e nostalgia, indo além da simples mudança climática.

Significados da frase segundo o contexto de Drummond e a cultura:

Outonizar-se com dignidade : Drummond sugere viver esse tempo com paciência e suavidade, aceitando a maturidade, similar à forma como a natureza deixa cair as folhas.

Recolhimento e reflexão : Diferente da expansão do verão, o outono é uma época de transição que convida a olhar para dentro.

Tempo de colheita da alma : As folhas que caem e os frutos amadurecidos simbolizam o fechamento de ciclos e a valorização do que foi vivido, pintando o tempo com memórias.

Outonos da alma : A expressão também é associada à aceitação da finitude e à beleza da solitude.

É uma metáfora sobre viver com calma, aceitar ritmos suaves e encontrar graça nas transições da vida.


EUA e Trump : perdieron la ternura. Por Kakay


Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Kevin Lamarque/Reuters


É desalentador o que ocorre no mundo inteiro com as decisões criminosas dos EUA, especialmente do estranho e decrépito presidente Trump. O povo norte-americano sempre foi, em regra, voltado só a si mesmo, além de desinformado e tosco. Mas existia certa regra internacional que delimitava ou, às vezes, demarcava os abusos intervencionistas e megalomaníacos do poder de Washington.

Ainda que tenhamos presenciado, ao longo dos últimos tempos, muitas invasões a outros países, os EUA tentavam, de alguma maneira, anunciar as ações temerárias como parte de uma estratégia para manter a paz. Agora, despiram as máscaras. É a guerra de dominação. O fim do direito internacional. A força pela força e pelo objetivo econômico. Não existem mais desculpas a serem dadas. É a barbárie institucionalizada.

Quando o Brasil enfrentou os golpistas do 8 de Janeiro e os submeteu a um julgamento público pelo Supremo Tribunal, com a condenação e a prisão dos líderes, inclusive do ex-presidente Bolsonaro, o país deu uma demonstração ao mundo de civilidade e maturidade institucional.

Enquanto isso, nos EUA, os norte-americanos elegiam o chefe do golpe do Capitólio. Era o sinal do vale-tudo institucionalizado. Não apenas a submissão dos poderes constituídos ao jugo do presidente Trump, mas também uma carta branca para os delírios golpistas muito além das fronteiras do país. A corrida armamentista e colonizadora não encontra limites.

Até mesmo criar um conselho, sob o completo controle norte-americano, para substituir e desmoralizar a ONU, foi efetivado. Em um misto de megalomania, demência, prepotência e arrogância, e para fugir de um impeachment decorrente do caso Epstein envolvendo pedofilia, o presidente Trump se intitulou imperador do mundo.

Jeffrey Epstein. Foto: Reprodução

As invasões armadas, as mortes generalizadas de civis, de mulheres e de crianças e o controle dos mares, tudo descamba para uma desordem geral. Vez ou outra, os EUA erram a mão e encontram alguma resistência, mas nada que não signifique, ao fim e ao cabo, um massacre do país invadido, com a morte de milhares de inocentes. As declarações de Trump são cada vez mais delirantes e desencontradas. Como não tem interlocutor, ele fala o que quer. Parece que o mundo capitulou e a barbárie é a regra.

A última manifestação de Trump, dizendo, em tom de galhofa –mas é sério–, que vai ter “a honra de tomar Cuba” e que fará lá “o que quiser”, é estarrecedora. Durante décadas, submeteram Cuba e os cubanos a um isolamento criminoso e cruel. Desumano. Um embargo assassino. Mataram um povo de fome e estrangularam um país. Agora, depois de constatarem que o país está em frangalhos, desdenham do povo cubano e dizem que é fácil dominá-lo, pois ele está “fraquinho”. É a constatação inequívoca da força pela força, do desprezo ao direito internacional e do fim de qualquer réstia de humanidade.

Farão de Cuba uma praia de luxo para os ricos norte-americanos. Um resort parecido com a ideia que projetaram para Gaza. Em Cuba, o ataque poderá ser por terra, frustrados por não poderem invadir o Irã por terra, por causa das condições do país. Vão vingar a derrota na Baía dos Porcos de 1961, quando um grupo paramilitar treinado pela CIA, com apoio das Forças Armadas dos EUA, fracassou ao tentar derrubar Fidel Castro. Cuba sempre habitou o imaginário popular de muitas gerações, inclusive da minha juventude, como exemplo de um povo altivo, resistente e íntegro.

Quando os EUA estiverem liquidando os cubanos, já esgotados pelo embargo assassino, é importante observar a reação das pessoas. Com essa invasão, morrerá um pouco do que há de humano em cada um de nós. Em cada um que ainda resiste e acredita que é possível vencer a barbárie desenfreada. Talvez só nos reste sofrer com os cubanos e esperar que os excessos desse imperador do mundo despertem o sentimento da necessidade de resistência. É o que nos resta diante do império da força.

Lembrando-nos de Fidel Castro: “As bombas podem matar os famintos, os doentes e os ignorantes, mas não podem matar a fome, as doenças e a ignorância.”


Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido pela alcunha de Kakay, é um dos maiores advogados criminalistas brasileiros. É também poeta e escritor.

Pobre menino rico