Mostrando postagens com marcador aprovação social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aprovação social. Mostrar todas as postagens

Bem-vindo à era da morte da razão


 


Rodolfo Fonseca

Existe uma mudança, que não mais tão silenciosa, acontecendo diante dos nossos olhos e talvez ela seja uma das maiores transformações culturais do nosso tempo: Durante séculos discutíamos ideias, hoje discutimos pessoas.

Antes perguntávamos se um argumento era verdadeiro, agora queremos saber quem o disse, de que lado ele veio, qual bandeira carrega e a qual grupo pertence. A razão foi sendo lentamente substituída pelo pertencimento e, sem perceber, deixamos de buscar a verdade para buscar aprovação.
Não existe mais certo ou errado...
Existe apenas estar dentro ou estar fora!
Recentemente terminei de assistir à série  House of Cards  e, apesar  de ser uma obra de ficção, uma ideia ficou ecoando na minha cabeça muito depois do último episódio (e se posso dar um conselho, não assista a 6a. temporada... é horrível, infelizmente).

Bom, em vários momentos a série mostra que, na política e no poder, raramente vence quem está certo, mas quem consegue controlar a narrativa. A verdade se torna secundária quando a percepção passa a valer mais do que os fatos.

Enquanto assistia, não consegui evitar a sensação de que aquela obra de ficção parece uma descrição bastante fiel do mundo em que vivemos.

Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos dedicado tão pouco tempo para examiná-lo. As pessoas parecem não estar mais interessadas em compreender uma ideia, mas apenas em descobrir se ela foi dita pela pessoa "certa".

Se veio do grupo correto, recebe aplausos antes mesmo de ser analisada, mas se nasceu do grupo considerado errado, pode estar absolutamente correta e ainda assim será descartada sem sequer ser ouvida.

A lógica perdeu espaço para a identidade, o argumento foi derrotado pelo crachá e a coerência passou a valer menos do que a tribo...

É curioso perceber como esse fenômeno se repete em praticamente todos os ambientes.

Na política, pessoas defendem propostas que criticariam ferozmente se fossem apresentadas pelo adversário.

Na religião, muitos aceitam interpretações sem jamais abrir o texto original.

Na ciência, há quem confunda o método científico, que vive da dúvida permanente, com a autoridade de determinados cientistas.

Nas empresas, excelentes ideias morrem simplesmente porque foram apresentadas pela pessoa errada.

Até dentro das famílias isso acontece, filhos repetem opiniões herdadas sem nunca investigá-las e pais rejeitam reflexões dos filhos apenas porque elas desafiam antigas certezas.

O conteúdo quase nunca é o protagonista, o que realmente importa é saber quem está autorizado a falar.

Talvez esse seja o verdadeiro retrato da morte da razão, não quando as pessoas deixam de pensar, mas quando deixam de pensar por conta própria. A pergunta "isso é verdade?" foi silenciosamente substituída por outra muito mais conveniente: "quem foi que disse isso?".

Penso que quando isso acontece, a verdade deixa de ser descoberta e passa a ser votada... o consenso parece mais importante do que a evidência, a popularidade pesa mais do que a coerência e o aplauso coletivo começa a valer mais do que a realidade.

Acho que existe uma explicação psicológica para isso: Pensar exige esforço, exige estudo, exige suportar a possibilidade de estar errado e, principalmente, exige abrir mão do conforto de sempre concordar com aqueles que nos cercam.

Pertencer, ao contrário, é extremamente confortável e quando uma tribo pensa por você, desaparece a necessidade de investigar... basta repetir. E em troca, você recebe aceitação, identidade, proteção e a agradável sensação de estar do lado certo da história. O problema é que a realidade nunca teve compromisso com o nosso sentimento de pertencimento.

A história inteira da humanidade mostra isso. Durante séculos acreditou-se que o Sol girava em torno da Terra e milhões de pessoas tinham absoluta certeza dessa ideia. A realidade, no entanto, jamais precisou da aprovação delas para continuar sendo o que era.

A gravidade não muda conforme a ideologia de quem cai. Dois mais dois continuam sendo quatro, ainda que uma multidão decida chamá-los de cinco.

A verdade possui uma característica profundamente inconveniente para qualquer grupo organizado: ela simplesmente existe, independentemente da quantidade de pessoas que concordem ou discordem dela.

Talvez seja exatamente por isso que controlar a linguagem sempre foi uma das formas mais eficientes de controlar sociedades. Quem define o significado das palavras influencia a maneira como as pessoas percebem o mundo.

Se você muda o nome das coisas, muda também a forma como elas serão interpretadas. Foi essa a preocupação de Confúcio quando afirmou que a primeira tarefa de um governante deveria ser a retificação dos nomes, porque, quando as palavras deixam de representar corretamente a realidade, a própria sociedade começa a perder sua capacidade de compreendê-la. Séculos depois, George Orwell explorou a mesma ideia em 1984, mostrando que não era necessário proibir pensamentos, bastava eliminar as palavras que permitiam formulá-los. Sem linguagem, a própria ideia desaparece.

Quanto mais observo o mundo, mais percebo que vivemos uma época curiosa. Nunca houve tantas opiniões e talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar reflexão genuína. As pessoas compartilham frases antes de examiná-las, defendem conclusões antes de conhecer os argumentos e escolhem seus posicionamentos muito mais pela identidade de quem fala do que pela consistência do que está sendo dito.

A consequência inevitável é uma sociedade dividida em torcidas, onde vencer importa mais do que compreender e onde mudar de ideia passou a ser visto como sinal de fraqueza, quando, na verdade, talvez seja uma das maiores demonstrações de inteligência.

Albert Einstein dizia que a "medida da inteligência é a capacidade de mudar" e Sócrates construiu toda a sua filosofia fazendo perguntas que ninguém gostava de ouvir. Ambos compreenderam algo que parece cada vez mais raro nos dias de hoje: a razão não nasce das certezas, mas da disposição de revisá-las.

Talvez o verdadeiro pensamento independente comece justamente quando temos coragem de contrariar não apenas os outros, mas também as nossas próprias convicções.

É por isso que acredito que o autoconhecimento não começa quando descobrimos quem somos, mas quando descobrimos por que acreditamos naquilo em que acreditamos? 

Quantas opiniões realmente nasceram da nossa experiência e quantas apenas herdamos da família, da escola, da religião, da universidade, da televisão ou das redes sociais?

Quantas vezes defendemos uma ideia porque ela faz sentido e quantas apenas porque ela nos mantém pertencendo ao grupo ao qual queremos continuar ligados?

Talvez a verdadeira coragem intelectual do nosso tempo não seja defender uma bandeira, mas conservar a capacidade individual de dizer "isso faz sentido". A razão sempre foi um instrumento solitário, ela não pergunta quem falou, pergunta apenas se é verdade!

No dia em que deixarmos de fazer essa pergunta, deixaremos de pensar e uma sociedade que abandona a razão dificilmente percebe quando começa a perder também a liberdade.




O desejo de aparecer nas redes sociais






O desejo de aparecer nas redes sociais parece ser influenciado por uma necessidade inerente de aprovação social, de ser aceito e reforçado pelos outros.


Atualmente existe um grande desejo de aparecer nas redes sociais, mas será que somos tão felizes quanto mostramos em nossos perfis? Essa questão surge do conceito de “felicidade”, talvez fictício, mostrado continuamente nas redes.

Se navegarmos em qualquer rede social, encontraremos posts de conhecidos viajando pelo mundo cheios de sorrisos, ou talvez uma foto daquele amigo – com quem não conversamos há semanas – com sua namorada, extremamente felizes e apaixonados como se tivessem saído de um filme.

De acordo com o Estudo Anual de Redes Sociais elaborado pelo IAB da Espanha, passamos aproximadamente 37 horas conectados por semana, cerca de 22% do nosso tempo.

Por esse motivo, de acordo com o estudo da IAB, nossa vida social está muito ligada às plataformas sociais da Internet. Portanto, não é de surpreender que usemos essa ferramenta para enviar mensagens para as pessoas ao nosso redor.

Em resumo, estamos interconectados à Internet e às redes sociais, e elas fazem parte do nosso dia a dia. Por isso, é importante nos perguntarmos: que parte da realidade mostramos nas redes sociais? 

Temos a urgente necessidade de contar ao mundo o quão felizes somos, embora essa felicidade possa não ser verdadeira.




A necessidade de aprovação nas redes sociais

De acordo com várias pesquisas, há uma necessidade genuína de agradar aos outros, representada por uma necessidade de aprovação social e de aparecer nas redes sociais.

É o que afirma um estudo da Universidade do México chamado A conveniência social reavaliada: mais do que uma distorção, uma necessidade de aprovação social.

Portanto, o desejo de aparecer nas redes sociais parece ser promovido por uma necessidade inerente de aprovação social, de sermos aceitos e reforçados pelos outros.

Por exemplo, obtemos uma sensação de bem-estar quando publicamos uma “selfie” e recebemos muitos likes e comentários lisonjeiros. Afinal, quem não gosta de elogios?

É daí que surge a atitude de adotar certos costumes ou atividades com o objetivo de querer aparecer ou causar uma boa impressão nos outros, principalmente nas redes sociais.

O psicólogo José Elías, presidente da Associação Espanhola de Hipnose, fala sobre “a adoção de certos hábitos, gestos e atitudes que buscam projetar uma boa imagem (uma imagem que receba reconhecimento positivo), para demonstrar aos demais que somos felizes, embora isso nem sempre seja verdade ou não estejamos convencidos disso”.

Em outras palavras, de acordo com o autor, satisfazemos nossa necessidade de aprovação social mostrando uma imagem de nós que pode não fazer parte da realidade.

O efeito “felicidade contagiosa”

Segundo um estudo da Universidade da Califórnia, o humor das pessoas é modificado e condicionado pelas postagens que elas veem nas redes sociais. O mesmo estudo garante que “o conteúdo publicado procura transmitir uma imagem de ‘felicidade contagiosa'”.

Segundo o estudo, perceber a alegria e o bem-estar dos outros nos leva a querer chegar a esse estado, e por isso nos estimula a publicar conteúdos semelhantes, produzindo o efeito de “felicidade contagiosa”.

Nesse sentido, demonstrar a “felicidade” online é contagiante e promove o desejo de aparecer nas redes sociais, ou seja, de fazer parte daquela onda contínua de mensagens e fotos “felizes”.




O que publicamos faz parte da realidade?

Yolanda Pérez, doutora em psicologia, diz que “Tem de tudo. Pessoas que mostram a verdade, algo mais irreal e até pessoas que exibem a verdade até a metade; estes últimos são os mais comuns”.

Além disso, a autora acrescenta: “Mostramos como somos bonitos, como somos simpáticos e sorridentes em um instante, mas essas fotos que são reais não mostram a nossa realidade, apenas parte dela, porque o dia tem 24 horas e é impossível sorrir por tanto tempo”.

A realidade que projetamos nas redes certamente não está completa, pois é impossível nos sentirmos felizes o tempo todo: a vida é cheia de emoções positivas e negativas, e ignorar essas últimas por causa do sistema só nos prejudica.

Em resumo, é claro que nem tudo que vemos nas redes é um reflexo da realidade. A aparência nas redes sociais, como explicamos, é relativa.

Portanto, não devemos cair no erro de pensar que existem pessoas que vivem 24 horas por dia em um estado de bem-estar máximo: todos nós temos momentos de crise, tristeza e angústia.

Ter dias ruins faz parte da vida e nos faz valorizar ainda mais os bons momentos. Em suma, ninguém tem uma vida absolutamente perfeita.

“ Sentir todos os tipos de emoções é o que enriquece as nossas vidas.”  - Daniel Goleman -