Sobre a maturidade



Gustl Rosenkran

Alguém me perguntou uma vez o que seria o mais importante para mim em relacionamentos com outras pessoas. Respondi que seria a MATURIDADE. A pessoa perguntou então: “Como assim maturidade? Quer dizer então que você prefere se relacionar com gente velha?”. 

Não gostei do termo “gente velha” (não existe gente “velha”; o que existe é gente em fases diferentes da vida) e percebi mais uma vez que é esse o conceito de maturidade de muita gente, o que não está errado de todo, pois a própria palavra passa a noção de “MATURA + IDADE”, ou seja, idade madura. Mas não é só isso.

Ligar a maturidade à idade da pessoa é um conceito limitado, pois maturidade é bem mais que isso e, num sentido mais profundo, não está necessariamente vinculada à idade cronológica. Todos nós conhecemos crianças que nos surpreendem pelo seu nível de maturidade e também pessoas de idade mais avançada que nos assustam pelo seu nível de imaturidade.

Maturidade tem para mim uma ligação muito maior com o grau de desenvolvimento da pessoa. Vou até mais longe e digo: com o desenvolvimento da alma – o que explica para mim a maturidade “precoce” de alguns.

É claro que experiência de vida faz (ou deveria fazer) amadurecer, porém, isso nem sempre é verdadeiro. Como já dito, há crianças maduras e adultos imaturos, o que mostra claramente o que digo. Vou tentar a seguir aprofundar um pouco o conceito de maturidade, apontando aquilo que a caracteriza.

Maturidade é independência

Uma pessoa madura é independente, em seus atos, em sua forma de pensar, em sua forma de ver o mundo. Uma pessoa madura não se prende à opinião dos outros, não age para agradar (ou deixar de agradar) ninguém e é fiel a si mesma.

Maturidade é responsabilidade

Uma pessoa madura assume a responsabilidade por sua vida, pelo seu caminho, tem senso de responsabilidade sobre si mesma, assumindo as rédeas, o controle de sua realidade e de seu crescimento, com disciplina e nitidez. 

Enquanto uma pessoa imatura sempre busca a “culpa” nos outros, tentando transferir a responsabilidade por sua vida, pelas coisas que faz ou deixa de fazer, pelos problemas que surgem, o ser maduro compreende que não são os outros os responsáveis pela sua felicidade, pelo seu bem-estar, mas também pela sua infelicidade e pelo seu desconforto neste mundo. Ele assume também sua responsabilidade no meio onde vive, pela sua família, pelos que dependem dela, pelo seu papel moral e social.

Maturidade é respeito

Quem não respeita, não é maduro. E quem é maduro respeita. Ter maturidade é entender que todos nós somos iguais em nosso direito de existir. É ter consciência de que não há seres humanos superiores e inferiores e que qualquer um, por mais que não gostemos da pessoa, por mais que ela seja diferente de nós, por mais que não compreendamos e não concordemos com ela, merece o mesmo respeito, sempre, sem exceções. 

Assim, a pessoa madura respeita a qualquer um, também (e principalmente!) a si mesma. E ela respeita também a vida, com todas suas nuanças, com tudo que dela faz parte.

Maturidade é coragem

Maturidade é coragem de ver as coisas como são, sem enfeitá-las, sem se perder em ilusões. É coragem de ser lúcido, de ser verdadeiro, de enfrentar a vida com seus altos e baixos, sem fugir, sem enfiar a cabeça no buraco, de caminhar com os próprios pés. E ser maduro é ter coragem de ser sincero, não se corrompendo por medo de dizer o que realmente pensa ou sente.

Todos nós temos medos, como o de fracassar, por exemplo. Mas uma pessoa madura não se deixa levar por esse medo. Ela o enfrenta e busca realizar seus projetos. Ela não se deixa frear pelo medo de cair, pois sabe que aprende com os tombos, tendo a chance de reconhecer onde errou e prosseguindo com otimismo e mais forte, ao contrário dos imaturos, que temem caminhar para não errar, que têm medo de sofrer, e assim não correm riscos e terminam parados no mesmo lugar.

Maturidade é tolerância

Ser maduro significa também ser tolerante com os outros, é aceitar que somos todos imperfeitos e limitados, que ninguém pode desmerecer o direito de alguém existir e ser como ele é, independente de gostar ou não de sua forma de vida.

Maturidade é complacência para consigo mesmo

Ser maduro é ser complacente consigo mesmo, aceitando as próprias limitações, com as frustrações e contrariedades inevitáveis desta vida. Pessoas maduras normalmente não se aborrecem quando erram e, quando se aborrecem, nunca mais do que o tempo necessário, não se maltratando por isso, não sendo duras consigo. Ser maduro é dar carinho e atenção a si mesmo, aceitando seus defeitos e limites, tentando sempre melhorar e crescer, entendendo que todo mundo tem seus defeitos e erra. Também eu, também você.

Maturidade é aceitação da dor

Ninguém neste mundo está livre de dor e sofrimento. Ser maduro é aceitar esse fato, ao invés de tentar evitar o que nos machuca. Aceitar as dores da vida significa ter certa resiliência, desenvolvendo uma capacidade de absorver o sofrimento, compreendendo que também ele faz parte da vida, mas sem se entregar à tristeza e ao ressentimento, sem transformar o sofrimento em um monstro imbatível. 

É aceitar a dor sem se ver como vítima, é aceitá-la como aquilo que ela é: uma parte de nós. Maturidade não é buscar ser feliz o tempo todo, mas saber que a tristeza também é importante para o crescimento, aceitando-a com dignidade.

Maturidade é diferenciação

Ser maduro é entender que o mundo não é preto e branco, que não há sempre um “certo” e um “errado”, que há várias verdades neste mundo e que a própria verdade não é necessariamente a única que tem validade e que ela às vezes não tem validade alguma. É compreender que as coisas nem sempre são como parecem, que tudo na vida tem, no mínimo, dois lados e que ver sem diferenciar limita muito nossa visão.

Maturidade é coerência

Uma das coisas que mais tenho visto na internet nos últimos tempos é a incoerência de posturas. Vejo muita gente se contradizendo, com uma capacidade extrema de dizer uma coisa e negá-la na mesma frase. É gente que diz: “Não sou racista, mas acho que todo negro é isso ou aquilo”, “Nada tenho contra homossexuais, mas não aceito dois homens se beijando perto de mim”, “Não discrimino religião alguma, mas acho que todo muçulmano é terrorista”, e assim por diante. Quem se posiciona assim, mostra incoerência. E isso é um forte sinal de imaturidade.

Sim, maturidade requer coerência. Não adianta falar de amor ao próximo apenas na teoria e, na prática, discriminar outras pessoas, desejando-lhes o mal, propagando preconceitos e coisas negativas sobre elas.

Maturidade é capacidade de reflexão

Uma pessoa madura reflete antes de se expressar, pois ela sabe que aquele pensamento que veio em primeiro lugar, principalmente em situações carregadas emocionalmente, pode estar totalmente errado, distorcido. Ela sabe que seus sentimentos e mais ainda a forma como os interpreta podem estar completamente equivocados e precisam, portanto, de reflexão, ou melhor, introspecção, antes de serem exteriorizados.

É importante o controle racional das emoções e de sentimentos negativos como desprezo, inveja, ciúme, vingança, raiva e agressividade, o que não significa reprimir e muito menos ignorar essas emoções. Significa apenas que elas devem ser refletidas e filtradas pela razão, analisando uma situação antes de abordá-la.

Maturidade é humildade

Você é uma pessoa especial, sem dúvida. Mas não somente você. Todos somos especiais: você, eu, mas também o carteiro, a mulher da padaria, o vizinho, enfim, todo mundo! Não reconhecer isso e se achar mais especial que outras pessoas é ser arrogante, prepotente e imaturo.

Uma pessoa madura compreende que ela é uma pequena parte de um todo, um grão de areia numa duna, uma única letra em um livro, uma estrela no firmamento. Ser maduro é ser humilde, é reconhecer que sua “especialidade” aumenta quando não é realçada, é ter consciência das próprias limitações, é viver com modéstia e simplicidade.

Maturidade é justiça

Somos imaturos quando somos injustos. Por exemplo, quando estamos frustrados e descarregamos nossa frustração em alguém. Pessoas maduras também se aborrecem com suas frustrações, mas não descarregam sua raiva nos outros, sem que eles nada tenham a ver com o que ocorreu. 

Também somos injustos quando julgamos alguém precipitadamente, quando o atacamos sem ter esse direito, quando não reconhecemos que eles têm os mesmos direitos que nós, quando praticamos o princípio de “dois pesos e duas medidas”, quando julgamos e condenamos alguém sem provas de sua culpa, quando cobramos mais dos outros do que de nós mesmos. A pessoa madura busca agir de modo justo, atribuindo a si e aos outros direitos e deveres iguais.

Maturidade é equilíbrio e sabedoria

Uma pessoa madura tem competência para se relacionar com pessoas em qualquer ambiente e habilidade para evitar conflitos desnecessários e improdutivos. Ela busca o equilíbrio e a paz social, na sociedade, dentro de sua casa, entre os amigos e em qualquer ambiente que frequenta, agindo com sabedoria e buscando somar e não dividir, partilhando o que sabe, buscando o que é bom para todos e não só para si próprio e tentando ajudar a construir um clima positivo e harmonioso, onde se constrói ao invés de destruir, sendo claro, sereno, humano, praticando o bem e almejando a evolução do todo.

A pessoa madura sabe se calar quando é melhor não dizer nada e não se cala quando falar é necessário. Ela busca a paz de espírito, o entendimento, o equilíbrio entre as energias, entre as pessoas, entre tudo, agindo com constância e não de acordo com seu humor. Ela sabe que diversão e distração são necessárias, mas também trabalho e engajamento, e que a balança só se equilibra quando os opostos se igualam.

Então, resumindo: amadurecer é aprender a viver de forma independente, com responsabilidade e respeito por você mesmo e pelo mundo à sua volta, com coragem de ver as coisas como são. É prosseguir apesar das incertezas e dos medos, sendo tolerante para com os demais e complacente consigo mesmo, aceitando a dor sem se entregar a ela, tendo uma visão diferenciada e coerente do mundo, refletindo com humildade, praticando a justiça e buscando sempre o equilíbrio e a sabedoria.

Talvez você, caro leitor, pense agora: “Puxa, é muita coisa! Assim ninguém nunca vai conseguir amadurecer!”. 

De fato, nenhum ser humano é perfeito. A maturidade, em sua plenitude, é uma meta, que nos serve como guia e nos ajuda a crescer, mas sem ansiar a perfeição. Se fôssemos perfeitos, seríamos anjos e não gente! 

É importante entender que nenhum de nós jamais conseguirá ser sempre e completamente maduro, mas que podemos fazer muito para nosso crescimento pessoal. E compreender isso nos ajuda a amadurecer.


Postado no Conti Outra









Fuja das almas mesquinhas. Viver é um exercício de grandeza




André J. Gomes

Está faltando grandeza na gente. Falta, sim. Em todo canto, falta. Vivemos à míngua de gestos generosos, intenções grandiosas, ações maiores. Como bichos tímidos, acanhados em nossos projetos, reduzimos nossas vidas aos cargos e postos e títulos e relações oficiosas e protocolares que aos poucos nos transformam em meros colecionadores de miniaturas, acumulando milhas de mesquinharias. Nós e nossas vidinhas habitadas por pessoinhas deslumbradas, sorrindo sem graça em jantarezinhos sem afeto, cozinhando pratinhos sem gosto, a partir das receitinhas de homenzinhos dos programinhas de tevê.

Falta grandeza na gente, sim. Insistimos em ser rasos, superficiais, rasteiros, trancafiados em nossas verdades minguadas, metralhando com o dedo quem passar perto. Rareiam amigos de coração aberto e mãos postas, estendidas. Falta quem se disponha a escutar mais e mostrar menos, perguntar mais do que responder, questionar mais que pontificar. Falta gente disposta a pagar a conta por pura e simples gentileza. Ah… como são raras as visitas que surpreendem quando chegam para o churrasco em casa alheia trazendo nos braços algo além do fardo de doze cervejas previamente combinadas. Um bolinho para a dona da casa, um presentinho para as crianças. Qualquer coisa para além de uma presença fria, mirrada, previsível, burocrática.

Pior. Nossa escassez de elevação vem sob a escolta das matilhas de gênios e suas teorias em defesa da mesquinhez. “É a crise!”; “não sobra dinheiro para isso”; “também, com o preço das coisas…”; “no mundo moderno cada um paga a sua, tá reclamando do quê?”; “É cada um por si” e outras desculpas esfarrapadas. Como se a falta de dinheiro fosse o único problema.

Será mesmo? Ou tanta evasiva não passa de nossa obtusa mania de pequeneza crescendo como verruga, aumentando como um buraco? Certo é que nos tornamos sovinas, ridículos, avarentos de emoção e entrega e disposição para nós e para os outros. Isso, minha gente, tem pouquíssimo a ver com dinheiro. Estar “no bico do urubu”, sem um tostão para nada, não faz de alguém um “mão de vaca”. Há muito mendigo por aí dividindo seu pedaço de cobertor, sua porção de comida fria e seu meio cigarro com quem necessita. Porque generosidade é coisa das almas elevadas, com ou sem fundos patrimoniais. E ela está em falta como a água que baixa nas represas e o dinheiro que some dos cofres.

Nosso tempo na vida é tão pequeno e a grandeza anda tão pouca! Quanto será que nos resta? Por quanto mais você e eu estaremos aqui? Quanta vida nos cabe ainda? Trinta anos? Quarenta? Duas horas, um minuto? Pergunto, pergunto e com franqueza me dou conta de que, no fundo, não importa. Não interessa porque no fim do caminho qualquer tempo terá sido pouco. Muito pouco tempo para o perdermos com pequenezas.

Sejamos francos. A vida anda mirrada demais. Reduzida contra vontade, coitada, à pequena experiência pessoal de cada um. Obrigada por nós mesmos a dar as costas à sua vocação essencial. Porque, você sabe, diferente do que querem os mesquinhos, viver é nada senão um tremendo e escandaloso exercício de grandeza. Sejamos francos. Está faltando grandeza na gente.


Postado no Bula

A África e a travessia da morte


Corpos de mortos em naufrágio chegam a Malta Foto: Reuters 22/04/2015


Mauro Santayana, em seu blog:


A "Primavera" Árabe, fomentada pelos EUA e pela União Europeia, com suas intervenções no Oriente Médio e no Norte da África, continua pródiga em produzir cadáveres, em fecunda safra, trágica e macabra.

Morre-se nas mãos do Exército Islâmico, que começou a ser armado para tirar do poder inimigos de Washington, como Kaddafi e Bashar Al Assad. Morre-se nas cidades destruídas da Síria, da Líbia e do Iraque. Morre-se no deserto, ou à beira mar, na fuga do inferno que se estendeu por países onde até poucos anos crianças iam para a escola e seus pais, para o trabalho, todas as manhãs.

Morre-se, também, no Mar Mediterrâneo, quando naufragam embarcações frágeis e superlotadas a caminho de um destino incerto em um continente, a Europa, que odeia e rejeita os refugiados de seus próprios erros, alguns tão velhos quanto a política de colonização que adotou um um continente que ocupou, roubou e violentou, de todas as maneiras, por séculos a fio.

Para não escrever a mesma coisa, desta vez sobre os mortos de Catânia, reproduzo texto do final de 2013, sobre os mortos de Lampedusa, que pereceram em um dos mesmos inumeráveis naufrágios, nas mesmas circustâncias, nas mesmas geladas profundezas, em que recebem, agora, os corpos daqueles que, empurrados pelo desespero, a fome e a violência, os seguiram para a morte, fazendo uma trágica travessia que, na maioria das vezes, não leva a lugar nenhum: 

"Berço de antigas civilizações, o Mar Mediterrâneo abriu suas águas, por dezenas de séculos, para receber, em ventre frio e escuro, os corpos de milhares de seres humanos.

Mar de vida, morte e sonho, Ulisses, na voz de Homero, singrou suas águas. E tampando os ouvidos, para não escutar o canto das sereias, aportou em imaginárias ilhas, fugindo de Cíclope e Calipso, para enfrentar, a remo e vela, os ventos de Poseidon em fúria.

Por Troia, Cartago, nas Guerras Púnicas ou do Peloponeso, mil frotas cavalgaram suas ondas, pejadas de armas e guerreiros. E, no seu leito descansam, se não os tiver roído o tempo, comerciantes fenícios e venezianos, guerreiros atenienses e espartanos, os pálios e as espadas de legionários romanos, escudos e capacetes cartagineses, navegantes persas, cavaleiros cruzados, califas e sultões.

Os mortos do Mediterrâneo descansam sobre seu destino.

Suas mortes podem não ter sido justas, mas, obedeciam ao fado das guerras e do comércio, à trajetória do dardo ou da flecha que subitamente atinge o combatente, ao torpedo disparado pelo submarino, à asa, perfurada por tiros de artilharia, de um bombardeio que mergulha no mar a caminho da África do Norte, ao sabre que os olhos vêem na mão do inimigo e à dor do imediato corte.

De certa forma, elas obedeciam a uma lógica.

Mas não há lógica ou utilidade nas mortes que estão ocorrendo nestes dias, dos meninos e meninas que se afogam, em frente à costa italiana, na tentativa de chegar a solo europeu, depois de atravessar o Mediterrâneo.

Há anos, centenas de pessoas têm morrido dessa forma. No dia 3 de outubro, um naufrágio na ilha italiana de Lampedusa deixou ao menos 339 mortos – quando cerca de 500 imigrantes vindos da Eritreia e da Somália tentavam chegar à Itália. Oito dias depois, uma embarcação com 250 imigrantes africanos virou na mesma região e 50 pessoas morreram.

Que crime cometeram esses meninos e meninas? Nos seus barcos eles não levavam o ouro da Fenicia, nem lanças e escudos, nem mesmo comida, nem seda ou veludo, a não ser a sua roupa, seus pais e suas mães, sua pobre e corajosa esperança de quem foge da guerra e da miséria.

Mas, mesmo assim, a Europa os teme. A Europa teme a cor de sua pele, o idioma em que exprimem suas idéias e suas emoções, os deuses para quem oram, seus hábitos e sua cultura, sua indigência, sua humanidade, sua fome.

Se, antes, lutavam entre si, os europeus hoje, estão unidos e coesos, no combate a um inimigo comum: o imigrante.

O imigrante de qualquer lugar do mundo, mas, principalmente, o imigrante da África Negra e do Oriente Médio.

Barcos de países mediterrâneos, como os da Grécia, Espanha e Itália, patrulham as costas do sul do continente. Quando apanhados em alto mar, em embarcações frágeis e improvisadas, por sua conta e risco, mais náufragos que navegantes, os imigrantes são devolvidos aos países de origem.

Antes, a imigração era, principalmente, econômica. 

Agora, a ela se somam as guerras e os deslocamentos forçados. São milhões de pessoas, tentando fugir de um continente devastado por conflitos hipocritamente iniciados por iniciativa e incentivo da própria Europa e dos Estados Unidos.

O Brasil está fazendo sua parte, abrindo nosso território para a chegada de centenas de refugiados sírios, como já o fizemos com milhares de haitianos e clandestinos escapados da África Negra que chegam a nossos portos de navio.

A Itália lançou uma operação militar “humanitária”, para acelerar o recolhimento de imigrantes que estiverem navegando em situação de risco junto às suas costas, mas irá manter sua rigorosíssima lei de veto à imigração, feita para proibir e limitar a chegada de estrangeiros.

Como a mulher, amarga e estéril, que odeia crianças, a Europa envelhece fechada em seus males e crises, consumida pela decadência e a maldição de ter cada vez menos filhos. 

Mas prefere que o futuro morra, junto com uma criança árabe, no meio do mar, a aceitar a seiva que poderia renovar seu destino.

Sepultados pela água e o sal do Mediterrâneo, recolhidos, assepticamente, nas praias italianas, ou enterrados, junto com seus pais, em cemitérios improvisados da Sicília – ao imigrante, vivo ou morto, só se toca com luvas de borracha - a meio caminho entre a miséria e o terror e um impossível futuro a eles arrebatado pela morte - os fantasmas dos meninos e meninas de Lampedusa poderiam assombrar, com sua lembrança, a consciência européia.

Se a Europa tivesse consciência."


Postado em Blog do Miro em 23/04/2015




Sobreviventes do naufrágio no Mediterrâneo chegaram à Sicília







Para envelhecer sem morrer aos poucos



Rebeca Bedone

O doutor atende seu paciente diabético em uma nova consulta. Se tem alguém que é a cara da esperança, é este senhor de idade avançada. Ele entra na sala com dificuldade, encurvado e apoiado em sua bengala, anda lentamente por causa da sequela do derrame cerebral, vira na direção do médico quando ele o chama, já que não enxerga há alguns anos, e sorri o sorriso da sua felicidade.

Certa vez, o mesmo médico se encontrou com outro idoso. Depois que o cumprimentou e perguntou como estava, o paciente respondeu “Vou levando a vida só”. Viúvo e sem parentes por perto, disse que ocupava seu tempo visitando os médicos, lendo o jornal, pagando as contas e recebendo a aposentadoria. Ia quase todos os dias à praça jogar Dama com outros aposentados solitários. Quando o doutor perguntou se ele estava triste, respondeu que não, pois já tinha realizado muita coisa boa na vida.

Fala-se que envelhecer é ir morrendo aos poucos. Conforme chega a velhice, as doenças aumentam e os músculos enfraquecem. Vai-se a memória e aparece a solidão. Doem articulações, o peito e a alma.

Rubem Alves disse: “Na velhice, o medo se vai porque não se tem mais nada a perder. A proximidade da morte nos dá um atributo dos deuses: nada de mais terrível nos pode ser feito”. Quando vemos idosos que carregam essa força dentro de si, acreditamos mesmo que envelhecer, e adquirir maturidade, nos torna mais corajosos.

Também aprendemos que mesmo as pessoas felizes têm momentos de solidão e saudades. E que os tristes também sabem encontrar a alegria. Descobrimos que manter dentro da gente algumas coisas que deixamos para trás não é sinônimo de sofrimento, como, também, pode ser uma forma de amar mais ainda aquilo que escolhemos.

“Não sei se foi a velhice que abriu os meus olhos ou se ela, a velhice, simplesmente me deu coragem para dizer o que eu sempre vira e não dissera, por medo”. Nosso poeta sabia mesmo que viver é um grande desafio. E nessa jornada estamos sempre em busca dessa coragem para mudar o que não está bom e para falar o que está preso na garganta. Atravessamos oceanos do dia a dia de tantos porquês, mas aí é que está a grande questão. Uma mudança maior só pode começar depois que mudemos por dentro. E só é possível mudar se quisermos.

Por causa de metas a cumprir e contas a pagar, muitas vezes deixamos de viver. O viver de verdade, e não só a rotina imposta e muitas vezes necessária — mas nem sempre insubstituível. Esquecemos que o tempo passa enquanto desejos e sonhos ficam sufocados. O corpo esmorece mais rápido se a alma adoecer primeiro.

Vamos! Temos muito a fazer. A vida não espera tanto assim, quando percebemos, lá se foram longos anos de dúvidas e escuridão.

Veja! Já brilhou a esperança no coração que aprendeu a falar a saudade. Nos olhos que dão valor às coisas que realmente importam. Na paz de envelhecer sem morrer aos poucos.

Ainda estou longe da velhice, comecei a descobrir o que é maturidade somente agora, e sei que ainda tenho muito que apender.

Mas acho curioso quando penso que estou mais perto dos 40 do que dos 30 anos, justamente porque não sinto que tenho essa idade. Sinto-me mais jovem do que antes. Quanto mais o tempo passa, mais coisas quero fazer. Preciso conhecer o mundo, escrever um livro, voltar a estudar piano, retomar os treinos de corrida e pintar os meus sonhos.

“A vida é boa. Longa vida é o que desejo para você e para mim.” (Rubem Alves).


Postado no Bula


Mino Carta : Lula é o maior Presidente do Brasil e Fernando Henrique é um blefe !



Dois grandes Jornalistas : Paulo Henrique Amorim e Mino Carta

Vídeo imperdível !






A opinião dos brasileiros, de acordo com as últimas pesquisas do Datafolha, de que o Presidente Lula foi o maior a ocupar o cargo é compartilhada pelo jornalista Mino Carta, da Carta Capital.

Em entrevista exclusiva a Paulo Henrique Amorim, Mino chega a lembrar de Getúlio Vargas para enaltecer o petista que governou o país por dois mandatos, de 2003 a 2010.

“O Lula fez o melhor governo do Brasil Republicano desde sempre. Já o Vargas, a meu ver, é o maior estadista brasileiro, pois ele teve um projeto de Brasil, de estadista”, disse o diretor de redação da Carta Capital na última segunda-feira (20).

“O projeto do Lula se dá em outro momento, evidentemente. Ele teve a felicidade de durar os oito anos e conseguiu tirar da miséria 30 milhões de brasileiros”, continuou Mino.

Nascido na Itália e no Brasil desde 1946, o jornalista que fundou, além da Carta, as revistas Quatro Rodas, Veja e criou o Jornal da Tarde, definiu o PT como um partido igual aos outros após chegar ao poder e lembrou a trajetória do partido idealizado por Lula, em plena ditadura militar, quando fez uma entrevista com o então metalúrgico para a IstoÉ, em fevereiro de 1978.

“O PT nasceu em circunstancias favoráveis à criação de um partido de esquerda. Na época das greves que tentavam apagar o peleguismo. Foi uma ideia de Lula criar um partido dos trabalhadores. O PT conseguiu criar uma ideia de partido autentico, de fato. E a ideia inicial do partido foi cumprida. Mas, eleito o Lula, com o PT no poder, ele passou a se comportar como todos os outros”, opinou.

Ao falar da trajetória de Lula, Mino o comparou ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“O Fernando Henrique é um blefe total, um inativo, mistificador, que ganhou uma fama imerecida. Ninguém nunca leu um livro do FHC. A única coisa que alguém registra como importante na vida dele não é obra dele, que é a Teoria da Dependência, que ele confirmou na prática”, declarou Carta ao Conversa Afiada.

Na entrevista, Mino ainda discorreu sobre o Governo Dilma, o Brasil da Casa Grande e Senzala e Daniel Dantas, quem chama de “o dono do Brasil”. Sobre o tema, o entrevistado revela bastidores da Operação Satiagraha e da prisão de Dantas em 2005, que contou com pressões de políticos, e o recebimento de um telefonema do ministro da Justiça à época, Tarso Genro.

Abaixo, outros trechos da entrevista:

O Brasil da Casa Grande e Senzala:

O Lula tirou 30 milhões ou mais da senzala.

Estar na senzala não é só uma questão material.

Ao tirá-los de lá, não lhes entregou a consciência da cidadania. Eles são mentalmente escravos.

O povo brasileiro é de uma infantilidade dolorosa e despido de consciência política.

Não tem noção de seu poder. É de uma covardia avassaladora.

Governo Dilma:

Nós [Carta Capital] apoiamos a Dilma, mas acho que o Lula escolheu mal. 

Não tenho duvida quanto a boa fé e a retidão da Dilma.

Mas o Governo da Dilma foi um desastre.

Em primeiro lugar, ela não soube se cercar das pessoas que poderiam ajudá-la a governar.

O José Eduardo Cardozo [ministro da Justiça] é um cretino. Isso é um desastre ferroviário para não dizer aéreo.

O Belluzzo e o Delfim Neto choram até hoje por terem aprovado o Mercadante [ministro da Casa Civil] na Universidade de Campinas

Daniel Dantas:

Ele manda no país. 

Ele está por trás de tudo. Pegue qualquer operação policial, inclusive as que não ocorreram.

A maior bandalheiras dos últimos tempos foi a Privataria Tucana e por trás de tudo estava o Dantas.

Os últimos 20 anos da história do Brasil têm o Dantas como protagonista.

Gilmar Mendes:

É uma das razões pela qual gostaria de ir embora.

Ele é a demonstração de Justiça em um país da Casa Grande e Senzala.

Ele trabalha para a Casa Grande.


Postado no Conversa Afiada em 23/04/2015


Igor Fuser: 'A Globo é o principal agente da imbecilização da sociedade brasileira'


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Jornalista e Professor Igor Fuser


Brasil - Diário Liberdade - A Rede Globo de Televisão está completando 50 anos de existência em abril de 2015. 


Este instrumento de manipulação da burguesia opera como o principal agente da imbecilização da sociedade brasileira no plano cultural, na opinião de Igor Fuser, jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Em depoimento para o Diário Liberdade, ele afirma que o papel da Globo "é sempre o de anestesiar as consciências, bloquear qualquer tipo de reflexão crítica".

Para acabar com esse monopólio da mídia, Fuser acredita que é preciso uma verdadeira democratização das comunicações no Brasil, que "passa, necessariamente, pela adoção de medidas contra a Rede Globo".

Confira a seguir o depoimento do jornalista e professor Igor Fuser, sobre o papel histórico da Globo, na política, na cultura e nas suas coberturas jornalísticas.

A Rede Globo é o aparelho ideológico mais eficiente que as classes dominantes já construíram no Brasil desde o início do século XX. Substitui perfeitamente a Igreja Católica como instrumento de controle das mentes e do comportamento.

A Globo esteve ao lado de todos os governos de direita, desde o regime militar – no qual se transformou no gigante que é hoje – até Fernando Henrique Cardoso. 

Serviu caninamente à ditadura, demonizando as forças de esquerda e endossando o discurso ufanista do tipo "Brasil Ame-o ou Deixe-o" e as versões sabidamente falsas sobre a morte de combatentes da resistência assassinados na tortura e apresentados como caídos em tiroteios. 

Mais tarde, após o fim da ditadura, alinhou-se no apoio à implantação do neoliberalismo, apresentado como a única forma possível de organizar a economia e a sociedade.

No plano cultural, é impossível medir o imenso prejuízo causado pela Rede Globo, que opera como o principal agente da imbecilização da sociedade brasileira. Começando pelas novelas, seguindo pelos reality shows, pelos programas de auditório, o papel da Globo é sempre o de anestesiar as consciências, bloquear qualquer tipo de reflexão crítica.

A Globo impôs um português brasileiro "standard", que anula o que as culturas regionais têm de mais importante – o sotaque local, a maneira específica de falar de cada região.

Pratica ativamente o racismo, ao destinar aos personagens da raça negra papéis secundários e subalternos nas novelas em que os heróis e heroínas são sempre brancos. 

Os personagens brancos são os únicos que têm personalidade própria, psicologia complexa, os únicos capazes de despertar empatia dos telespectadores, enquanto os negros se limitam a funções de apoio. Aliás, são os únicos que aparecem em cena trabalhando, em qualquer novela, os únicos que se dedicam a labores manuais.

A postura racista da Globo não poupa nem sequer as crianças, induzidas, há várias gerações, a valorizar a pele branca e os cabelos loiros como o padrão superior de beleza, a partir de programas como o da Xuxa.

O jornalismo da Globo contraria os padrões básicos da ética, ao negar o direito ao contraditório. 

Só a versão ou ponto de vista do interesse da empresa é que é veiculado. Ocorre nos programas jornalísticos da Globo a manipulação constante dos fatos. 

As greves, por exemplo, são apresentadas sempre do ponto de vista dos patrões, ou seja, como transtorno ou bagunça, sem que os trabalhadores tenham direito à voz. 

Os movimentos sociais são caluniados e a violência policial raramente aparece. Ao contrário, procura-se sempre disseminar na sociedade um clima de medo, com uma abordagem exagerada e sensacionalista das questões de segurança pública, a fim de favorecer as falsas soluções de caráter violento e os atores políticos que as defendem.

No plano da política, a Rede Globo tem adotado perante os governos petistas uma conduta de sabotagem permanente, omitindo todos os fatos que possam apresentar uma visão positiva da administração federal, ao mesmo tempo em que as notícias de corrupção são apresentadas, muitas vezes sem a sustentação em provas e evidências, de forma escandalosa, em uma postura de constante denuncismo.

A Globo pratica o monopólio dos meios de comunicação, ao controlar simultaneamente as principais emissoras de TV e rádio em todos os Estados brasileiros juntamente com uma rede de jornais, revistas, emissoras de TV a cabo e portais na internet.

Uma verdadeira democratização das comunicações no Brasil passa, necessariamente, pela adoção de medidas contra a Rede Globo, para que o monopólio seja desmontado e que a sua programação tenha de se submeter a critérios pautados pela ética jornalística, pelo respeito aos direitos humanos e pelo interesse público.


Postado no Contraponto em 21/04/2015
















Além do Cidadão Kane é um documentário produzido pela BBC de Londres - proibido no Brasil desde a estréia, em 1993, por decisão judicial - que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro.